Meirelles defende aumento do consumo interno de laranja
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segunda-feira, 13 de setembro de 1999
Por Venílson Ferreira 
São Paulo, 14 (AE) - O Secretário de Agricultura e Abastecimento de São Paulo, João Carlos de Souza Meirelles, disse hoje (14) que a solução para o problema dos baixos preços recebidos pelos produtores de laranja está no aumento do consumo interno.
Os citricultores reclamam que estão recebendo da indústria de suco de laranja em média US$ 1,10 por caixa, enquanto o custo de produção, mais colheita e transporte está em US$ 2,20.
Meirelles se reuniu hoje pela manhã em separado com produtores
Federações de Trabalhadores na Agricultura e com a Indústria de Cítricos além dos processadores de suco, na sede da Secretaria de Agricultura e Abastecimento. À tarde, participou da Câmara Setorial de Citricultura, no Palácio dos Bandeirantes.
O secretário disse que a proposta de incrementar o mercado doméstico foi bem recebida por todos. Meirelles afirmou que o papel do governo do Estado será de articulador para buscar convergências do setor e posteriormente será parceiro das entidades na busca de solução dos problemas. Segundo ele, as discussões estão sendo encaminhadas no sentido de garantir a venda da laranja que ainda será colhida, sem questionamento do fruto que já foi vendido. Na opinião de Meirelles, a expansão do consumo interno será fundamental para que a comercialização do suco brasileiro não continue dependente da exportação.
O secretário defendeu a realização de uma campanha internacional junto a lideranças políticas e religiosas da União Européia contra os subsídios à agricultura. Segundo Meirelles, os subsídios são responsáveis pela miséria nos países em desenvolvimento, principais exportadores de alimentos e que têm no agronegócio, muitas vezes sua única atividade econômica.
Meirelles criticou a decisão dos 15 países da U.E. de manter a política agrícola comum que garante subsídios à agricultura da ordem de US$ 325 bilhões por ano, de 2000 a 2006. Os países da U.E. irão defender esta posição na rodada do milênio, que será realizada em Seattle, EUA em dezembro próximo.
Na opinião de Meirelles, o subsídio deve tornar-se um drama de consciência para os países em desenvolvimento. Segundo ele, a decisão da U.E. passa para a história como uma atitude negativa, mas na contrapartida, existe a posição dos países da área do Pacífico, incluindo os Estados Unidos e o Japão, contrária à manutenção do subsídio. "Tenho certeza que no horizonte de 10 a 15 anos, os subsídios das exportações agrícolas vão deixar de existir, disse ele.
Resultado - O resultado da Câmara Setorial de Citricultura foi insatisfatório para os produtores, segundo o presidente da Associação Paulista dos Citricultores (Associtrus), Valdir Virtuan.
"A indústria se recusou a discutir os dois pontos considerados fundamentais pelos produtores", disse Virtuan. "Queremos o estabelecimento de um preço que cubra os custos de produção e a garantia de compra da laranja que ainda está para ser colhida".
Virtuan estima que 30% das 388 milhões de caixas de laranja previstas para esta safra ainda não foram colhidas.
O presidente da Associação Brasileira dos Exportadores de Sucos Cítricos (Abecitrus), Ademerval Garcia, disse que a indústria não pode ser responsabilizada pelas perdas e danos ocorridas no setor.
"Somos apenas um elo da cadeia citrícola. Já temos o couro grosso de tantas críticas que nos fazem nos períodos de crise da citricultura", disse ele.
O impasse gerado pela indústria em torno do não-estabelecimento de um acordo coletivo de preços foi contornado pelo secretário João Carlos de Souza Meirelles, com a proposta de discussão de dez pontos convergentes entre as empresas e os produtores. O principal deles é a necessidade de realização de uma campanha para a expansão no mercado interno, que funcionaria como regulador de preços em anos de excesso de oferta.
No final da reunião de hoje, ficou decidido que um grupo de trabalho formado por representante de cada segmento irá se reunir na próxima quinta-feira, às 14 horas, na Secretaria de Agricultura, para discutir uma agenda de pontos comuns a serem encaminhados.
Na avaliação do secretário de Agricultura, João Carlos de Souza Meirelles, mesmo que a indústria tenha se recusado a discutir preços, a reunião foi positiva. Segundo ele, é preciso primeiro garantir o mercado para o excedente antes de se discutir preços. Meirelles acredita que, com o decorrer das discussões, a indústria possa aceitar discutir questões relacionadas a preços.
Globalização - Durante o encontro, o presidente da Associação Paulista de Citricultores (Associtrus), Valdir Virtuan, afirmou que a citricultura paulista corre o risco de a cada ano diminuir em São Paulo, pois não existe renovação dos pomares, nem realização dos tratos culturais necessários em função dos baixos preços recebidos pelos produtores. "Hoje as indústrias brasileiras já são responsáveis por 50% do suco de laranja produzido na Flórida. Há dois anos uma fábrica de Olímpia foi transferida para os Estados Unidos", disse Virtuan.
O presidente da Comissão de Agricultura e Pecuária da Assembléia Legislativa de São Paulo, Junji Abe, disse que em reunião realizada no final do mês passado alguns deputados paulistas chegaram a propor a formação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito para investigar a questão da citricultura. Ele disse que não se trata de uma ameaça, pois espera-se que a indústria seja sensível aos problemas enfrentados pelos produtores.
Durante essas exposições o presidente da Associação Brasileira da Indústria dos Exportadores de Cítricos (Abecitrus), Ademerval Garcia, permaneceu calado. Garcia havia se manifestado no início do encontro, ao reiterar que legalmente as indústrias não podem negociar acordos coletivos de preços e quando contestou denúncias de algumas empresas estariam se recusando a esmagar a laranja de determinados produtores.


