São Paulo, 24 (AE) - O número de fusões e aquisições de grandes conglomerados internacionais, considerando apenas as operações cujos valores superam os US$ 3 bilhões, quadruplicou entre 1996 e 1998, de acordo com dados preliminares da Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento (Unctad).
A Unctad, que publicará o World Investment Report (relatório definitivo) ao final de setembro, mostra que essas operações passaram de oito, em 1996, para 16, em 1997, e chegaram a 32 em 1998. Ou seja, em um período de três anos, as fusões e aquisições cresceram 400%.
Porém, essas operações não só cresceram em número, mas também em valor (ver tabela logo abaixo). Em 1996, por exemplo, a maior operação somou US$ 5,6 bilhões (a da construtora norte-americana Olimpya & York Companies com a canadense Carena Developments) e em 1998 chegou a US$ 55 bilhões (a aquisição da Amoco pela British Petroleum). Isto é, cerca de dez vezes mais em comparação ao daquele período.
"O resultado foi uma surpresa para a Unctad, que esperava fusões totais na base de US$ 300 bilhões a US$ 400 bilhões em 1998, mas elas superaram os US$ 600 bilhões", disse com exclusividade à Agência Estado o secretário-geral da Unctad, embaixador Rubens Ricupero, por telefone de Genebra.
O informe da Unctad concluiu que, até agora, "não houve crise financeira internacional que tenha conseguido deter a ambição de grandes conglomerados de transformar-se ainda em outros mais poderosos". Para o embaixador, o crescimento dessa operações ocorreu, em grande medida em países desenvolvidos, que não se viram afetados pelas crises dos últimos dois anos.
O aumento das grandes fusões durante o segundo semestre de 1997 e em todo o ano de 1998 indica que as empresas - embora por diversos motivos - mantiveram uma forte tendência de internacionalização, ao mesmo tempo em que ficaram atentas às crises da ásia, Rússia e do Brasil.
Até 1996, diz o relatório preliminar da Unctad, as grandes empresas acabavam se fundindo com a idéia de "quanto maior, melhor". O objetivo era antecipar-se a um concorrente em um mercado virgem, como os emergentes, ou tentar vencer o concorrente em seu próprio mercado por meio da compra de um rival.
A partir do final de 1997 e início de 1998, o objetivo das empresas era sobreviver ou manter o mercado que haviam conseguido nos anos anteriores às crises internacionais. "O melhor exemplo dessa estratégia é o das companhias de petróleo, que se uniram para amortizar os prejuízos em suas margens de lucro, provocados pela queda do preço do petróleo", diz o relatório.
"Só com a queda do preço do petróleo, os países da OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento) conseguiram poupar no ano passado US$ 60 bilhões, volume acima do que eles investiram fora da região", explicou Ricupero. No decorrer deste ano, a operação mais cara ainda é a fusão entre a Airtouch, dos EUA, e a britânica Vedafone, no valor de US$ 56 bilhões. Hoje, a Vedafone Airtouch é a maior empresa de telefonia celular do mundo, com 28 milhões de usuários.
De acordo com a Unctad, as operações de fusão e aquisição entre companhias de distintos países alavancaram em 39% o crescimento dos fluxos de investimento estrangeiro direto em 1998, em relação às do ano anterior. Ao todo, a Unctad calcula que o fluxo de investimento estrangeiro direto chegou a US$ 644 bilhões no ano passado. Desse montante, a parte que corresponde às operações de fusão ou compra de empresas chegou a US$ 411 bilhões, o dobro se comparado à de 1997 e o triplo em relação à parcela verificada em 1995.
"Nem todas as operações de fusão estão classificadas como investimento direto, porque não são necessariamente financiadas com um desembolso de fundos, mas pelo intercâmbio de ações ou por meio de empréstimos solicitados no mercado de capitais, o que não se registra como investimento direto", explica o relatório.
Segundo a Unctad, 90% das operações de fusão ocorreram entre companhias de países desenvolvidos, razão pela qual o fluxo de investimento direto nos países emergentes caiu 4% em 1998, em comparação a 1997. "Essa contração do investimento estrangeiro direto - a primeira em 13 anos de crescimento consecutivo - ocorreu principalmente no Sudeste Asiático, epicentro da crise financeira que começou em 1997 e ainda permanece latente", conclui o relatório.
Veja abaixo as três maiores operações nos últimos anos 1998 Valor (em US$ bi) British Petroleum/Amoco 55,00 Daimler-Benz/Chrysler 40,50 Zeneca/Astra 31,80 1997 Zurich Versicherungs/BAT Ind. 18,40 Roche/Corange 10,20 Allianz AG/AGF 10,00 1996 Carena/Olimpya & York 5,60 Fresenjus AG/M. Medical Care 4,20 Aegon NV/Providian 3,50 Fonte: Unctad final

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