Garcia Márquez escreveu, em seu último romance, que ''a vida não é aquela que a gente viveu, mas que a gente recorda, e como recorda para contá-la''. No mundo dos processos, principalmente os criminais, o que se recorda e o que se viu deve ser contado por pessoas chamadas de testemunhas. São fundamentais, ao lado das provas materiais, para que se tome uma decisão judicial.

Vou remar contra a correnteza dominante que considera o máximo a proliferação das denúncias anônimas para elucidação de casos. Em São Paulo, existe um serviço, mantido por ONG, que se chama Instituto São Paulo Contra a Violência, só para esse fim. Um disque-denúncia paulistano recebeu cerca de 30 mil telefonemas até setembro, dos quais 35% relacionados ao tráfico de drogas. Mais uma vez, é um trágico termômetro: vários males da sociedade se originam nas drogas, e não adianta brigar com os fatos.

Nos tempos da ditadura militar, o sistema de denúncias era cultivado para se apontar figuras ''suspeitas'' e locais idem. Pegava mal a figura do informante, logo rotulado de dedo-duro. No universo criminal, os bandidos não toleram nada disso e punem com a morte inconfidências que provocam consequências. Agora, na denúncia estimulada oficialmente pela chamada sociedade civil, procura-se reverter essa tendência, valorizando e não estigmatizando quem informa. Há inegáveis benefícios, como a localização de um cativeiro, onde estiver um sequestrado; os passos de um criminoso, que assim pode der interceptado, e assim por diante. Mas remar contra a correnteza é preciso. As palmas podem ser menos calorosas se percebermos que a denúncia estimulada oculta verdades terríveis. Entre elas: 1-) o medo generalizado de ser testemunha, lembrando que sem ela o processo formal não existe; 2-) a aceitação, por parte do Estado, que não existe condição de proteger testemunha, peça vital de qualquer processo, a tal ponto que a denúncia cultivada e alimentada somente é formulada com a garantia total do anonimato.

A exigência do segredo da fonte quer dizer que não se confia no sistema. Aliás, essas denúncias precisam ser filtradas porque muitas delas são falsas e giram em torno de desavenças pessoais, utilizadas como fórmula sórdida de vingança. E hoje, audaciosos criminosos mobilizam, antes das audiências, um sistema de intimidação para coagir testemunhas a voltar atrás em seus depoimentos. A propósito, o advogado Arnoldo Wald, professor na Universidade Estadual do Rio de Janeiro, observa que ''o ensino jurídico ainda continua, na maioria dos casos, tanto nos seus métodos quanto nas matérias ensinadas, mantendo as tradições dos meados do século passado, enquanto o mundo e o Brasil se transformaram radicalmente''. Isto é: nossos índices criminais, atrelados à violência, são uma aberração. E o medo de identificar-se para contar o que sabe, também é um horror.

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