Curitiba - Caos nos aeroportos, dúvidas sobre a segurança do controle do espaço aéreo e dois acidentes trágicos e de grandes proporções em apenas dez meses. O atual quadro da aviação civil brasileira tem desencadeado, segundo especialistas, uma onda de medo coletivo quando o assunto é viajar de avião. O embarque tornou-se um momento de angústia que, desde o ano passado, vem fazendo com que mais pessoas busquem tratamento para curar o medo de voar.
A psicóloga Neuza Corassa, coordenadora do Centro de Psicologia Especializada em Medos (CPEM), de Curitiba, afirma que, este ano, o medo de voar passou a ser o segundo principal motivo de atendimentos na clínica, perdendo apenas para o medo de dirigir. ''Até o ano passado, ele perdia para o medo de falar em público'', conta.
Segundo ela, os acidentes com os avião da Gol e, mais recentemente, com a aeronave da TAM em Congonhas, que juntos mataram mais de 350 pessoas, ajudaram a aumentar a procura por tratamentos. Mas não foram os únicos motivos. ''As viagens de avião ficaram mais acessíveis e, com isso, mais gente passou a ter que enfrentar esse medo'', justifica.
As tragédias, de acordo com Neuza, ajudam a potencializar o medo coletivo porque levam os passageiros a encarar o temor da morte. ''As vítimas desses acidentes simplesmente saíram de cena e as pessoas temem que isso possa acontecer também com elas'', explica. Medo que, para a psicóloga, tem razão de ser. ''É um medo real, não imaginário. E é até saudável, já que faz com que as pessoas fiquem mais atentas aos problemas'', afirma.
Profesor de Terapia Comportamental da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), o psicólogo Cloves Amorim concorda que o medo atual de viajar de avião tem, até certo ponto, razões concretas. ''A mídia está nutrindo este medo cotidianamente com informações e fica difícil as pessoas se distanciarem dele'', declara.
Mas como muita gente precisa viajar de avião, por motivos profissionais e pessoais, os psicólogos dão algumas dicas para encarar o medo. Uma delas é apelar para técnicas de relaxamento. ''Idas ao aeroporto podem ajudar para que a pessoa se ambiente com o transporte aéreo, podendo assim sentir menos medo'', afirma Neuza Corassa. Outra sugestão da psicóloga é que as pessoas repensem o ''volante'' de suas vidas, tentando deixar de lado o sentimento de que precisam ter controle de todas as situações de suas vidas.
Amorim acrescenta que, em casos de emergência, em que uma pessoa não pode de maneira alguma perder um vôo, pode-se até apelar para medicamentos. Mas devem ser indicados por especialistas. Diz ainda que, para uma pessoa temerosa tentar se acalmar, a companhia de alguém sem medos e tranquila durante a viagem pode ajudar. O psicólogo destaca que a ajuda de um especialista deve ser buscada quando o medo causa prejuízos. ''Se ela começa a perder viagens de negócios ou compromissos com a família porque tem medo de voar, é o momento de procurar ajuda técnica.''
Em um ponto, os dois especialistas estão em pleno acordo. ''É preciso contar com um remédio chamado tempo para que esse medo coletivo se amenize'', diz Cloves Amorim. ''O medo está ligado muitas vezes a uma situação passageira e, com o tempo, acaba passando'', completa Neuza Corassa.

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