Medo cala a população de Marquinho
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domingo, 11 de junho de 2000
Paulo Pegoraro Enviado a Marquinho 
Marquinho, vilarejo sede de município no Centro-Oeste do Estado, tem apenas cerca de 300 moradias e casas comerciais. Desde sexta-feira, a maior parte dos 800 moradores prefere ficar em casa. Por medo. Protegidos pelas paredes, eles se indignam com fatos que vêm sendo registrados há muito tempo, mas que eclodiram naquele dia quando a Polícia Militar (PM) prendeu o prefeito João de Lima Eleutério (PSDB), matou um sobrinho seu que seria também seu segurança , prendeu outras 17 pessoas (a maioria diretamente ligadas ao prefeito) e apreendeu 34 armas e grande quantidade de munição.
A situação era de normalidade no dia seguinte, segundo o que a Folha publicou ontem, com base em depoimento do delegado-adjunto de Laranjeiras do Sul, Celso Luiz de Oliveira. Normalidade só no fato de não haver conflito em praça pública ou presença da Polícia. Mas o que o jornal constatou na localidade foi a chamada paz de cemitério, com o silêncio das pessoas e o receio de falar sobre assunto relacionado à questões políticas.
A lei se fez presente de forma avassaladora em Marquinho na sexta-feira, sob o pretexto de que João de Lima Eleutério, 43 anos, quatro filhos, comandava um bando de pessoas envolvidas com crimes diversos, até mesmo o tráfico de drogas, do qual até agora nenhuma prova foi apresentada. Lei, porém, sempre foi letra morte na localidade, formada por uma maioria de pessoas muito humildes, geralmente oriundas do Extremo-Sul do Brasil e que antes haviam passado pelo Sudoeste paranaense. Crimes de sangue aconteceram continuamente ao longo do tempo, na região, a maioria deles ainda impune.
A lei em Marquinho, onde inexistem polícias Civil e Militar, passou a ser exercida por quem deteve o poder político, a partir de 1997, quando foi instalado o Município. A localidade foi desmembrada de Cantagalo, apesar de ter apenas 5.762 moradores segundo números oficiais e praticamente inexistir estrutura de serviços urbanos. Tudo estava para ser feito e Eleutério, como é conhecido, assumiu a tarefa.
Ex-vereador em Cantagalo e há 20 anos morando em Marquinho, Eleutério recebeu 1.579 votos e, respaldado por este contingente, passou a administrar um território reconhecidamente marcado por conflitos interpessoais e uma receita mensal de aproximadamente R$ 100 mil ao mês, sem nenhum conhecimento de administração. Ele estudou até o quarto ano do antigo curso primário e é dono de 30 alqueires de terras dobradas. Ou seja, assim como as demais propriedades do município, metade pertence a grandes proprietários e o restante é dividido entre humildes lavradores, quase todos gente de pouca frequência à sala de aula.
Porte ilegal de arma é punível, pela lei, e se a acusação mais consistente contra o prefeito e os demais presos na sexta-feira é esta, boa parte da população da localidade também estaria na mira da lei. A maioria das pessoas de Marquinho, e de municípios com a mesma formação sempre teve armas em casa. Muitos moradores ainda a usam entre a calça e a barriga, quando vão para algum lugar que consideram minimamente perigoso. No entanto, há uma grande diferença entre os velhos trabucos daquelas pessoas e pistolas de precisão ou armas de cano longo e grosso calibre que estavam em poder de Eleutério e os demais presos.


