Medidas brasileiras preocupam governo e Congresso
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domingo, 19 de setembro de 1999
Por Ariel Palacios, especial para a AE (assinatura obrigatória) 
Buenos Aires, 20 (AE) - A guerra comercial entre o Brasil e a Argentina está preocupando não só o governo, mas também o Congresso argentino. Convocada em caráter de "urgência", amanhã (21) a Comissão Parlamentar argentina do Mercosul se reunirá para analisar a escalada das medidas protecionistas deste país e a retaliação que causou por parte do Brasil: o fim das licenças automáticas para a entrada de 400 produtos argentinos no mercado brasileiro. A medida, que entrou em vigor hoje, está sendo considerada "grave" pelos deputados. Representantes da Sociedade Rural, da União Industrial, do setor petrolífero e do calçado também participarão da reunião.
O presidente da Comissão argentina, o senador Eduardo Bauzá, anunciou que quer reunir-se em breve com o deputado Julio Redecker, da comissão brasileira. Bauzá, que até 1996 foi o principal articulador do presidente Carlos Menem, pretende que parlamentares dos dois países detenham a escalada e encontrem uma solução para a crise. Redecker declarou à Agência Estado que nesta terça-feira à tarde a comissão brasileira também estará reunida. Redecker considerou que "o Brasil teve uma reação proporcional às medidas argentinas, mas no fundo, ninguém sai ganhando com essas atitudes dos dois países". Segundo ele, "esta crise se normalizará a partir da posse do novo presidente argentino em dezembro".
A reação brasileira surpreendeu o governo argentino, que agora tenta apaziguar os ânimos. "Não haverá uma guerra comercial", sustentou o chanceler Guido Di Tella, que, no entanto, afirmou que "a relação comercial com o Brasil nos preocupa". Di Tella disse que existem pressões protecionistas nos dois países desde que começou a crise financeira, e que elas costumam ocorrer em períodos de transição política.
O secretário da Indústria e Comércio, Alieto Guadagni, declarou que seu país não pretende retaliar: "Não teria sentido uma medida similar de nossa parte, já que nos consideramos sócios no Mercosul". Sobre as complicações burocráticas que passaram a existir para a entrada dos lácteos argentinos no Brasil, Guadagni disse que "é um retrocesso, pois havíamos concordado que cada país faria seu próprio reconhecimento sanitário".
Nos próximos dias, a tensão entre os dois países poderá aumentar, caso sejam aplicados obstáculos para-alfandegários para o papel brasileiro na Argentina. O subsecretário de Comércio Exterior, Félix Peña, declarou à imprensa que tal perigo de aumento na tensão não existe, e confirmou que as medidas contra o papel estarão implementadas "no máximo daqui a 30 dias". Peña é o autor da maioria das medidas protecionistas dos últimos meses.
A guerra comercial também está preocupando os integrantes do provável novo governo, que tomará posse em dezembro. A economista Beatriz Nofal, cotada para ocupar a embaixada argentina em Brasília no caso de vitória da coalizão de oposição Aliança UCR-Frepaso, disse à Agência Estado que "é preocupante o dano que este clima faz à imagem externa do Mercosul. Não cumprir o livre comércio ao qual os governos haviam se comprometido, atinge a credibilidade do bloco. Especialmente entre os investidores".
Referindo-se à vitória da oposição a preferida nas pesquisas, disse que "tenho confiança de que em um novo governo, isto vai se reverter".


