Médicos querem processar maternidade
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sexta-feira, 10 de outubro de 2003
Andréa Bordinhão<br> Equipe da Folha 
Curitiba - Os médicos Eldo Ern e Cristina Cerniak, acusados pelo Ministério Público (MP) de São José dos Pinhais, Região Metropolitana de Curitiba, de usarem o remédio abortivo Cytotec em gestantes, procuraram o Conselho Regional de Medicina (CRM) com o objetivo de mover um processo contra o Hospital e Maternidade Municipal São José dos Pinhais. De acordo com a assessoria do CRM, o casal de médicos afirma que foi julgado sumariamente pelo hospital, sem direito de defesa. Ern e Cristina também reclamaram que estão sendo perseguidos e caluniados, porém foram orientados pelo CRM a resolver esta questão na Justiça Comum.
O CRM instaurou ontem uma sindicância para averiguar o uso do remédio abortivo. Segundo o MP, o Cytotec foi ministrado em pelo menos 400 mulheres grávidas pouco tempo antes da data de elas darem à luz, com o intuito de adiantar os partos para que fossem feitos em seus plantões, revertendo o pagamento para eles.
A diretora-geral do hospital, que pela primeira vez se pronunciou à imprensa, Maria Cristina Singer Wallbach, contou que assim que assumiu o cargo, em abril deste ano, instaurou no hospital uma ouvidoria interna. O objetivo deste serviço é ouvir as pacientes sobre tudo o que ocorre durante o período de internamento. ''Foi assim que surgiu a denúncia de dupla cobrança, o que nos fez entrar com um processo administrativo. Depois, em uma reformulação em diversos setores do hospital descobrimos o enorme número de receitas do abortivo na farmácia, suspendemos a compra e começamos a investigar'', afirmou. Maria Cristina disse ainda que o caso não foi para a Justiça antes porque uma investigação interna é demorada e que quando o MP descobriu as inúmeras receitas de Cytotec na farmácia o hospital já estava investigando.
Uma comissão de ética do hospital está encarregada de investigar o caso em âmbito interno. Maria Cristina reiterou a posição do ex-diretor-geral Roberto Talamini Espinola, em entrevista à Folha. ''Nós adotamos o mesmo termo de compromisso, onde os médicos eram proibidos de praticar dupla cobrança. E começamos realmente a investigação porque houve denúncias por parte de pacientes.'' Em matéria publicada pela Folha, Espinola informou que nunca houve denúncia em sua gestão, não havendo, portanto, a necessidade de uma investigação.
Quanto ao fato de os dois médicos estarem dispostos a entrar com um processo contra o hospital, a diretora-geral explicou que eles foram afastados pelo provedor, que possui o poder de afastar qualquer membro do corpo clínico caso encontre irregularidades.
A Folha divulgou quinta-feira que o Ministério Público ajuizou uma ação civil pública pedindo a proibição dos médicos Ern e Cristina atuarem no hospital. Isso por causa da acusação de dupla cobrança. Outra ação, que também abrange o caso do uso do abortivo, está sendo preparada pelo MP. Os médicos se defenderam afirmando que usavam o Cytotec com base científica, em mães que estavam ansiosas e sem contrações e também para evitar cesarianas. Segundo eles, todas as grávidas permitiram o uso do remédio.


