A Polícia Federal anunciou ontem que vai investigar clínicas clandestinas onde são feitos abortos em Londrina. A decisão foi tomada depois que a Folha denunciou a venda do medicamento Cytotec – indicado para úlceras e usado para provocar abortos – no camelódromo, na área central da cidade. Um camelô afirmou que médicos também compram a droga, que tem a venda restrita a hospitais, para utilizá-la em suas clínicas.
O delegado-chefe da PF, João Luiz do Prado, disse que a polícia ainda não abriu inquérito para apurar a denúncia da venda do produto por camelôs porque não conseguiu apreender a droga nas barracas. ‘‘Sem apreensão não temos como abrir inquérito, mas vamos continuar investigando’’, disse.
Prado afirmou que a PF não pode ‘‘armar’’ um flagrante para apreender o Cytotec porque a prática estaria induzindo o camelô a cometer o crime de venda de produto contrabandeado. ‘‘Flagrante armado é ilegal. Vamos intensificar a fiscalização e vamos contar com a ajuda de outros camelôs para descobrir quem vende o remédio’’, explicou. O delegado disse que a primeira denúncia que a PF recebeu da venda do produto no camelódromo partiu da reportagem da Folha. ‘‘Antes disso nunca soubemos que esse produto era vendido no camelódromo’’, afirmou.
Ontem, uma comissão de camelôs procurou a reportagem para manifestar que está revoltada com a venda do produto no local. ‘‘Não podemos pagar por causa de um crime que vem sendo cometido por alguns vendedores. Nós reprovamos a venda desse remédio e, a partir de agora, nos comprometemos a fiscalizar quem vende e quem compra para denunciá-los à polícia’’, disse o ambulante Aparecido Ferreira Durães.
O camelô Marcos Roberto Serrano afirmou que todos os vendedores do camelódromo foram informados de que a Associação Camelódromo de Londrina (Acal) está auxiliando a polícia a identificar quem vende a droga. ‘‘Temos família para sustentar e não podemos perder nosso trabalho por causa de alguns que só pensam em ganhar dinheiro fácil’’, disse Serrano.
Anteontem, a Folha adquiriu o Cytotec numa barraca do camelódromo por R$ 80,00. O produto entra clandestinamente no País pela Ponte da Amizade, que liga o Brasil ao Paraguai. Em Ciudad del Este, a droga custa cerca de R$ 10,00. Médicos alertam que o Cytotec pode trazer complicações para o feto, caso o aborto não se concretize. A usuária da droga corre ainda o risco de morrer por rompimento de artérias.