Washington, 25 (AE) - Em seus mais de 150 anos de história, a influente Associação Médica Americana (AMA), que representa cerca 45% dos 620 mil médicos ativos nos Estados Unidos, cultivou a imagem de uma organização conservadora, preocupada com a qualidade da medicina praticada no país e a autonomia e o status dos médicos, membros de uma elite de profissionais liberais com uma renda média próxima aos US$ 200 mil por ano, ou seja, o salário do presidente dos EUA. Em nome desses mesmos objetivos, a AMA decidiu, agora, radicalizar.
Durante uma tensa reunião anual encerrada hoje, em Chicago, os 494 delegados do principal órgão deliberativo da associação decidiram abandonar sua tradicional oposição à sindicalização dos médicos americanos e adotaram uma nova política de promoção das formas organizadas de defesa dos interesses profissionais e salariais da categoria.
"Os médicos americanos já não conseguem ganhar um salário honesto por um dia de trabalho honesto", disse o dr. Edmund Donoghue, de Chicago.
"Os médicos estão recebendo ordens de pessoas que não têm nenhum treinamento em medicina". O dr. Jack Summers, de Akron, Ohio, foi ainda mais enfático: Minha profissão está sendo esmagada sob montanhas des normas e regulamentos, influência do governo e pelos HMOs", disse ele, referindo-se às "organizações de manutenção da saúde" ou planos fechados de seguro médico semelhantes ao que existem no Brasil e que já controlam o grosso de um setor responsável por aproximadamente 15% do PIB dos EUA.
Um dos lobbies das empresas do setor de saúde reagiu prontamente. Chip Kahn, o presidente da Associação de Seguro de Saúde da América, previu que iniciativa aumentará em pelo menos 10% o custo do seguro médico ( hoje próximo a US$ 500 por mês para uma família) e poderá acrescentar mais 2 milhões aos 35 milhões de americanos que não tem seguro médico.
Os médicos que apóiam a sindicalização dizem que seu interesse é menos o de defender seus salários do que o de proteger os pacientes e salvar uma indústria cada vez mais dominada por burocratas contadores de centavos. A AMA sublinhou este ponto determinando que os médicos que se sindicalizarem manterão o juramento de Hipócrates renunciando ao direito de greve.
"Os médicos não farão greve ou comprometerão os cuidados com o paciente", disse o dr. Randolph Smoak Jr., presidente do conselho da AMA. "Seguiremos sempre os princípios da ética médica".
Segundo ele, um dos objetivos da sindicalização dos médicos é aumentar seu poder de barganha em negociações coletivas para limitar os tipos de restrições que as empresas que dominam o setor estão impondo aos médicos, no tratamento dos pacientes, com o obejtivo de reduzir custos e maximizar lucros.
De acordo com estimativas da AMA, apenas algo entre 38 mil e 45 mil médicos dos EUA , ou aproximadamente 6,5% do total, pertencem hoje a sindicatos. Eles são, em sua maioria, profissionais em começo de carreira - internos ou residentes - que trabalham como empregados assalariados de hospitais. Mas seu número vem crescendo rapidamente.
Dois anos atrás, os médicos sindicalizados não passavam de 25 mil.
Hoje, mais de 80% dos médicos recém-formados começam a carreia nos HMOs, como empregados assalariados, em parte para evitar os custos dos caríssimos seguros que os médicos autônomos são obrigado a ter para se proteger contra processos de pacientes. Não há limitação legal para a sindicalização de médicos que trabalham sob contrato. Para estes, a decisão da AMA confere apenas o selo de aprovação da principal organização profissional da categoria a um movimento em curso e que, nos últimos anos, levou à formação de sindicatos independentes de médicos em metade dos cinquenta estados dos EUA.
O objetivo maior da AMA é promover a sindicalização dos 325 mil médicos americanos que trabalham como autônomos, seja em hospitais, seja em seus próprios consultórios. Para isso, a associação terá, primeiro, que convencer o Congresso a aprovar um projeto de lei já em discussão que proíbe profissionais liberais autônomos de se sindicalizar, em nome da proteção dos direitos dos consumidores previstos pelas leis antitruste.
A nova orientação da AMA sobre os méritos da sindicalização dos médicos tem como pano de fundo uma intensa discussão que ocorre neste momento no Congresso dos EUA sobre a garantia de alguns direitos básicos dos pacientes e a regulamentação de uma indústria que cobra cada vez mais por seus serviços.

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