Não fosse por uma bala perdida e o erro médico que se seguiu, Graciele da Silva Raimundo, de 16 anos, estaria casada e com quatro meses de gravidez. Hoje, porém, ela apenas espera por uma nova cirurgia, para reconstrução do intestino. Isso, depois de passar semanas com dores aparentemente inexplicáveis nas nádegas e, mais tarde, na perna.
A explicação, porém, estava no desleixo da equipe que a atendeu, na noite de 11 de setembro, no Hospital Municipal Dr. Benedito Montenegro, em Sapopemba, zona leste de São Paulo. Vítima de uma bala perdida, Graciele deu entrada no PS com perfuração no útero e intestino. E foi no seu abdome que os médicos esqueceram uma pinça hemostática de 15 centímetros. A estudante perdeu o bebê e teve alta, mas, de volta para casa, as dores eram tantas que teve de adiar o casamento, previsto para 30 de setembro.
Quinze dias depois da cirurgia, Graciele foi atendida no Hospital Ipiranga com fortes dores na região glútea. Os médicos constataram a presença de uma bala na superfície da nádega. O projétil foi retirado e a paciente, liberada. Na segunda-feira da semana passada, a estudante voltou ao hospital queixando-se de dores nas pernas. O ortopedista pediu um raio-X da bacia e, inesperadamente, constatou a presença da pinça hemostática no interior do abdome.
Segundo o cirurgião-geral Eduardo Purceli, responsável pela cirurgia no PS do Hospital Ipiranga, a paciente foi internada imediatamente e operada na dia 25. De acordo com Purceli, a cirurgia foi trabalhosa e durou três horas. ‘‘Achei que seria fácil, mas a pinça tinha aderido ao tecido’’, conta.
‘‘Há casos de pacientes que não chegam a se queixar de nada e passam a vida sem saber que trazem um instrumento cirúrgico dentro deles’’, diz o médico que já cuidou de casos semelhantes, até dez anos após a cirurgia inicial. Na quarta-feira a estudante irá tirar os pontos, mas continuará usando a bolsa de colostomia por mais dois meses, quando fará nova cirurgia. A família está procurando um advogado para mover ação contra o hospital e o Estado.

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