Médico faz campanha contra uso de cerol nas linhas de pipa
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segunda-feira, 31 de janeiro de 2000
Por Simone Menocchi 
São José dos Campos, SP, 31 (AE) - O médico Nilton Carvalho está encabeçando uma mobilização de moradores de São José dos Campos (SP) contra o uso de cerol nas linhas de pipa. Pó de mármore que, passado na linha, tem efeito semelhante ao de uma lâmina afiada, o cerol está transformando em pesadelo a brincadeira ingênua de soltar pipa. No mês passado, uma criança morreu e outra escapou por pouco de um acidente grave, na cidade.
O cerol é usado para cortar a linha de outras pipas. Nos dois casos ocorridos em janeiro, porém, a linha estava amarrada entre dois postes, para secar. No dia 15, o menino Kelvin Felipe da Costa Matos, de 5 anos, morreu com o pescoço cortado, quando andava de bicicleta, no Campos dos Alemães, periferia da cidade. No dia 24, Maiara Cristina Lázaro, de 6 anos, também sofreu um corte no pescoço, quando ia atravessar a rua, no bairro Altos de Santana. Socorrida a tempo pela mãe, a menina conseguiu salvar-se.
Conscientização - Carvalho quer lançar uma cartilha de conscientização sobre os riscos do cerol. "Vamos mostrar os estragos que este material pode fazer, o perigo que oferece", disse. "Queremos distribuir a cartilha nas escolas, principalmente, já que a atitude de abolir o cerol tem de partir das crianças". Com a ajuda de voluntários, o médico quer catalogar e estudar todos os casos de ferimentos ou mortes provocados por cerol na cidade. Carvalho está preparando ainda um vídeo, onde mostra as mutilações sofridas pelas vítimas.
Uma delas é Ismael Amâncio Júnior, de 10 anos, que se acidentou em 29 de janeiro do ano passado. Ismael teve o cerol enroscado na boca, o que lhe causou um corte profundo. "Foram 17 pontos: por meio centímetro o cerol não chegou à veia jugular", conta a mãe, Andréia Amâncio. Engajada na campanha, ela contou que nunca mais o filho quis empinar pipa. Fabricação caseira - Vendido em papelarias e mercearias por R$ 0 10, o saquinho com o pó de mármore pode ser comprado por qualquer criança. Quando é um adulto que tenta adquirí-lo, muitas vezes o cerol não é vendido. O produto tem fabricação proibida, mas é feito facilmente de forma caseira, misturando vidro moído e cola.
A família de Kelvin ficou revoltada com o acidente. "Foi isso que matou meu irmão", disse à reportagem Édson Mauro da Costa, de 14 anos, mostrando um saquinho de vidro moído que acabara de comprar. A polícia instaurou inquérito para apurar o caso, como fez em ocorrências anteriores. "Fica difícil achar a criança que esticou a linha, já que muitas fazem isso nesta época do ano", afirma um investigador, que pediu para não ser identificado.
O delegado seccional de São José, Roberto Monteiro, também considera difícil evitar acidentes com cerol. "O motivo é que não dá para proibir a prática de soltar pipa".


