Curitiba- Quando um paciente no hospital já está em fase terminal - ou seja, não há mais nada que os médicos possam fazer para mudar o quadro - o melhor é levá-lo para a casa, onde pode permanecer em contato com a família e os amigos. A opinião, de acordo com o médico Cícero Urban, é consenso entre os especialistas, mas ainda gera polêmica entre os familiares. Com mestrado e doutorado em medicina pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), Cícero Urban também fez pós-graduação em Bioética, em Roma, Itália.
Disposta a ‘‘tentar de tudo’’ para salvar a vida do paciente, a família às vezes acaba aumentando o sofrimento de quem não tem mais como sobreviver. Segundo o médico, que faz parte do Comitê de Ética do Hospital de Clínicas (HC) da UFPR, em Curitiba, quando o paciente terminal permanece na Unidade de Terapia Intensiva (UTI), por exemplo, ele sofre uma agressão que poderia ser evitada caso fosse para a casa.
‘‘Não se trata de um paciente que tem de fato chances de se curar. Estamos falando de pacientes terminais, que têm pouco tempo de vida e não têm mais como serem salvos pela medicina. A partir daí, temos que decidir quais medidas devem ser tomadas para que o paciente terminal tenha uma boa qualidade de vida’’, diz. Urban lembra que o paciente terminal não deixa de receber orientações e cuidados médicos após ser levado para casa. ‘‘Os cuidados paliativos irão continuar normalmente’’, explica.
Segundo Urban, mesmo sendo consenso entre os médicos, alguns profissionais não chegam a explicar à família as vantagens do paciente terminal retornar à casa, e acabam aceitando que ele fique na UTI. ‘‘Durante a formação médica, os estudantes nunca são preparados para lidar com esse tipo de situação. Eles não aprendem a trabalhar com a perda, com o luto, com a necessidade de conversar e dar conforto à família do paciente. Por isso, quando as pessoas pedem para que o paciente terminal fique na UTI, o médico às vezes fica receoso em explicar que isso não é a melhor opção’’, afirma.
Mas existem as famílias que compreendem a importância de aumentar a qualidade de vida do paciente terminal. De acordo com o médico, essa percepção vai beneficiar tanto o paciente quanto a família. ‘‘Ao perceberem que o paciente deve ficar o máximo de tempo em casa, sentindo o cheiro das coisas dele, perto das coisas dele, a família fica melhor também’’, analisa.
Aspectos culturais e religiosos, explica Urban, exercem influência na hora da família tomar uma decisão. E a idade do paciente também é determinante para a maioria das pessoas. ‘‘Quando se trata de alguém mais idoso, as pessoas tendem a ter mais facilidade em compreender que o melhor é o paciente ficar em casa. Isso não acontece quando o paciente terminal é uma criança, por exemplo’’, compara.
Cícero Urban afirma que cerca de 50% dos óbitos no mundo acontecem dentro do hospital. No Brasil, ele acredita que esse número deve ser ainda maior.

mockup