Toda dor física dói também no bolso. Gasta-se com o diagnóstico, gasta-se com o tratamento. Biologicamente, a dor existe por uma razão: é um alarme do corpo, um incômodo que surge quando há ameaça de dano aos tecidos que constituem o organismo. Mas, hoje a dor tem também uma função econômica - movimenta um gigantesco mercado de medicamentos, exames, procedimentos e serviços.
Números da Associação Brasileira da Indústria Farmacêutica (Abifarma) mostram que, a cada dez remédios vendidos no País, dois são analgésicos, dois são antiinflamatórios e um é uma associação medicamentosa entre relaxante, analgésico e estimulante. Analgésicos e antiinflamatórios vendem mais no Brasil que remédios para o sistema cardiovascular, mesmo sendo as doenças do coração as campeãs mundiais de mortalidade.
''O interesse mercadológico pela dor cresceu assustadoramente nos últimos 30 anos, principalmente por conta do aumento da expectativa de vida, de doenças ligadas ao envelhecimento e do estilo de vida cada vez mais estressante'', afirma o neurologista Manoel Jacobsen, do Centro da Dor do Hospital das Clínicas (HC), em São Paulo.
Embora afirme que os analgésicos devam ser usados com prudência, o neurologista é contra a obrigatoriedade de sua prescrição. ''Pense na situação de um sujeito que, hospedado numa fazenda, fica com uma terrível dor de cabeça no meio da madrugada'', argumenta. ''Mas se a dor for intensa e persistente, há de se procurar um médico para identificar a causa e tratá-la.''
Recentemente, cogitou-se a possibilidade de se exigir receita médica na venda de dipirona. Mas a venda livre foi rapidamente defendida pelos especialistas. ''Uma pesquisa da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) indica que a mortalidade aumentaria 16 vezes se houvesse a restrição'', diz Jacobsen. Isto porque as pessoas passariam a consumir mais antiinflamatórios, muitos deles com risco de causar hemorragia no sistema digestivo.(Agência Estado)

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