Mecânico confessa morte de meninos no Pará
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segunda-feira, 26 de abril de 2004
Sílvia Freiree Kátia Brasil<br>Agência Folha 
São Paulo, SP- O mecânico de bicicletas Francisco das Chagas Rodrigues Brito, 34, disse em depoimento à Polícia Civil do Maranhão ter sido o autor da morte de 12 meninos emasculados no município de Altamira (PA). A informação foi divulgada ontem pelo gerente de Segurança Pública do Maranhão, Raimundo Cutrim.
Os crimes em Altamira ocorreram entre 89 e 93. Nove meninos entre 8 e 14 anos foram emasculados, sendo seis mortos; outras seis crianças estão desaparecidas. Cinco desses casos _três assassinatos e duas tentativas_ foram a julgamento no ano passado e quatro pessoas foram condenadas. ''Ele confessou 12 casos com detalhes que nem a polícia sabia'', disse Cutrim. O mecânico morou em Altamira de 92 a 96.
O gerente disse ter enviado ontem um ofício à Secretaria da Segurança Pública do Pará e à Superintendência da Polícia Federal relatando o depoimento de Brito.
O advogado Jânio Siqueira, que defende três dos quatro condenados dos casos de Altamira, disse que o depoimento do mecânico ''revoluciona o panorama das provas'' e que irá incluir as novas informações no recurso que pede a anulação do julgamento.
Os condenados supostamente participavam da seita LUS (Lineamento Universal Superior), que seria liderada por Valentina Andrade. Ela também foi julgada _e absolvida- pelas mortes. A promotoria tenta invalidar o julgamento.
O mecânico está preso desde de dezembro de 2003, acusado da morte de Jonathan Vieira dos Santos, 15. Desde o final de março, Brito disse ter matado 28 meninos em São Luís (MA), segundo Cutrim. No dia 26, a polícia encontrou três ossadas enterradas dentro da casa de Brito.
A Agência Folha tentou falar com o defensor público indicado para defender o mecânico, mas não conseguiu localizá-lo.
Segundo o delegado João Carlos Diniz, responsável pela condução do inquérito no Maranhão, o mecânico deu diversos detalhes sobre as mortes de Altamira.
''Ele conta a história toda. Diz: ''O menino estava desse jeito, vestia a roupa tal, estava fazendo isso. Peguei ele e levei para tal lugar'. A gente vai conferir no processo e está lá'', disse Diniz.
Segundo o delegado, o inquérito sobre as mortes no Maranhão não foi concluído pois ainda existem perguntas a serem respondidas pelo mecânico. ''Ele ainda não explicou por que emascula. Diz não lembrar do momento da emasculação. Ele lembra só até o momento em que agride a criança. Ele não assume a premeditação, que a gente tem observado em todos os crimes'', disse Diniz.
O promotor de Justiça Márcio Tadeu, que acompanha o caso, disse que é preciso ter cautela em relação às declarações de Brito. ''A procuradoria-geral tem uma posição de muita cautela. Essas confissões não desconstituem decisões judiciais nem processos. Para nós, são motivos suficientes para continuarmos a investigar'', disse o promotor.
Para Andressa Caldas, diretora da ONG Justiça Global, as mortes não estão elucidadas.
Por recomendação da Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA (Organização dos Estados Americanos), o secretário especial dos Direitos Humanos, Nilmário Miranda, vai iniciar um acordo com o governador José Reinaldo Tavares (PFL-MA) para reparação de danos às famílias dos ''garotos emasculados do Maranhão''.
A reunião será na próxima quinta-feira, em São Luís, um dia antes do prazo final dado pela comissão para que o Brasil iniciasse uma solução amistosa do caso.


