MEC anuncia “Enem digital” a partir de 2020
Prova piloto será aplicada para os para os primeiros 50 mil alunos que se inscreverem para a edição do ano que vem, em 15 capitais brasileiras
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 04 de julho de 2019
Prova piloto será aplicada para os para os primeiros 50 mil alunos que se inscreverem para a edição do ano que vem, em 15 capitais brasileiras
Vitor Struck - Grupo Folha 

O Ministério da Educação anunciou nesta quarta-feira (3) que pretende “digitalizar” a aplicação do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) a partir de 2020, mirando dispensar o papel na edição de 2026. Para isso, o MEC vai aplicar a prova pelo computador somente para os primeiros 50 mil alunos que se inscreverem para a edição do ano que vem em 15 capitais brasileiras e optarem pelo novo formato. Nada muda para os mais de 5 milhões de inscritos para a edição deste ano.
O objetivo, de acordo com o Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira), é possibilitar a utilização de videos, infográficos e recursos ligados à gamificação, que nada mais são do que jogos interativos voltados ao aprendizado.
De acordo com o governo federal, nesta primeira etapa os alunos poderão optar pela prova digital e, por se tratar de um projeto piloto, estes poderão refazê-la se desejarem de modo a terem a pontuação reconsiderada. As datas de ambas as modalidades também já foram definidas em 2020: 11 e 18 de outubro (prova digital e redação) e 1ª e 8 de novembro (formato tradicional).
Também de acordo com o MEC, o número de aplicações por ano aumentará progressivamente. O objetivo da pasta é aplicar a prova quatro vezes por ano entre 2022 e 2025, mas ainda com os dois formatos, para somente em 2026 eliminar de vez a edição impressa.
O ministro da Educação, Abraham Weintraub, lembrou que o governo não vai comprar computadores para que as escolas apliquem o Enem “digital”, mas apenas fornecer as bases de dados que vão ser instaladas nos computadores que já existem. Já a gestão continuará sendo feita por empresas contratadas em um consórcio.
Weintraub lembrou que, através de um esforço conjunto com os núcleos regionais de educação, parcerias podem ser firmadas com entidades educacionais que possuam a infraestrutura de rede necessária para a aplicação das provas digitais.
Para João Vianney, especialista em educação a distância e diretor do “Blog do Enem”, os principais beneficiados com a possibilidade de agendar a realização da prova serão os alunos. Ele lembrou que a ideia nasceu ainda na gestão do ex-ministro da Educação, Cid Gomes (PDT), em 2015, quando até uma consulta pública sobre o tema foi realizada. No entanto, não houve continuidade no projeto.
Vianney comparou o novo modelo ao SAT (Scholastic Aptitude Test, ou Teste de Aptidão Escolar), o Enem dos Estados Unidos, já realizado desta forma, assim como em outros países. O funcionamento se dá com base na Teoria da Resposta ao Item, ou "TRI", metodologia que leva em consideração o nível de dificuldade de cada questão assinalada corretamente e não apenas o número total de questões acertadas para se calcular a pontuação do candidato. No Brasil, cada edição da prova traz 180 questões objetivas, além da redação.
“A composição das questões do Enem, com base na lógica do TRI, sempre vai obedecer para todos os candidatos uma amostra de questões fáceis, médias e difíceis na mesma proporção, independentemente da hora que ele faça o sorteio da prova dele. Então a prova vai ter sempre um peso equivalente”, explicou.
Com isso, o que já se pode afirmar é que Inep precisará aumentar o banco de itens, uma vez que o número de aplicações deverá aumentar. O banco de itens é um servidor que protege todas as questões e está localizado em uma das salas da sede, em Brasília (DF). No entanto, o Inep não divulga estes números.
Questionado sobre a possibilidade de fraudes, Vianney foi taxativo. “A fraude não está do lado de lá, está do lado de cá”, em alusão, por exemplo, à utilização de dispositivos como óculos digitais que possibilitem a transmissão da prova em tempo real a outra pessoa e o envio da resposta por outro dispositivo. “O sorteio não tem como ser fraudado, mas no ambiente da prova, se o computador estiver conectado à internet, a pessoa pode fazer uma consulta, isso é um mecanismo de fraude”, lembrou.
Em 2019, o Enem vai custar cerca de R$ 500 milhões para atender a uma demanda de 5 milhões de inscritos, ou seja, média de R$ 100 por aluno. No entanto, segundo o MEC, o custo da aplicação digital em 2020 para os 50 mil alunos será de R$ 20 milhões, ou seja, R$ 400 por aluno. Os valores da prova tradicional não levam em consideração as quantias arrecadadas com a taxa de inscrição, pagas por aproximadamente 50% dos inscritos. Mas, de acordo com o presidente do Inep, Alexandre Lopes, o custo irá diminuir ao longo dos anos seguintes, como com relação à logística, impressão, armazenamento e fiscalização.
Questionado, Vianney estimou que a redução destes custos chegue a 80%, no entanto lembrou que a grande vantagem não é financeira. “A grande vantagem é a flexibilidade para o aluno poder melhorar a sua performance. Nós que somos meninos não temos esse problema, mas uma menina que vai fazer a prova e sente que vai ficar menstruada, pronto, já estará desestabilizada e só vai ter outra chance no ano que vem. Com este sistema não, ela paga uma nova taxa e depois de uma semana faz outra prova”, comemorou.
Em princípio, a “prova piloto” será aplicada no ano que vem em Belém (PA), Belo Horizonte (MG), Brasília (DF), Campo Grande (MS), Cuiabá (MT), Curitiba, Florianópolis (SC), Goiânia (GO), João Pessoa (PB), Manaus (AM), Porto Alegre (RS), Recife (PE), Rio de Janeiro, Salvador (BA) e São Paulo.


