McCain tira aura de invencibilidade de Bush
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domingo, 14 de novembro de 1999
Por Paulo Sotero (correspondente) 
Washington, 14 (AE) - Até agora, o sentido da inevitabilidade de sua vitória esteve no centro da estratégia de George W. Bush para chegar à Casa Branca. Foi graças a isso que o governador do Texas e filho do ex-presidente George H. Bush conseguiu levantar mais dinheiro do que todos os seus concorrentes republicanos e oponentes democratas somados na fase preliminar da campanha. Bush continua a ser o favorito disparado tanto para ganhar a candidatura de seu partido no processo de prévias eleitorais que começa em fevereiro como para vencer um rival democrata na eleição de 7 de novembro do ano que vem.
Se o pleito fosse hoje, o governador do Texas venceria por margem de 10 pontos quaisquer dos dois pretendentes democratas, o vice-presidente Albert Gore ou o ex-senador de Nova Jersey, Bill Bradley. Entre os republicanos, as pesquisas nacionais dão-lhe vantagem de mais de 40 pontos sobre seu desafiante mais próximo, o senador de Arizona, John McCain. Mas, apesar desses números, o triunfo de Bush já não é mais coisa líquida e certa.
Uma pesquisa divulgada na semana passada colocou Bush apenas três pontos à frente do senador John McCain, de Arizona, em New Hampshire, o estado da Nova Inglaterra que tradicionalmente inaugura as eleições primárias, em fevereiro. (Alguns dias antes
Iowa fará a primeira prévia, sob um formato diferente, de "conchavos" sem urnas, nos quais os eleitores de cada partido se reunem em locais pré-determinados para serem fisicamente contados).
No mês passado, a vantagem do governador do Texas sobre o senador de Arizona era de 42% a 26%. Bush tem hoje 38% das preferências entre os republicanos, contra 35% de McCain. A diferença é menor do que a margem de erro da sondagem e significa um empate entre os dois candidatos.
Um ex-piloto da marinha que passou anos preso em Hanói, durante a guerra do Vietnam, McCain é um político conhecido por sua independência. Diz o que pensa e firmou-se como nome nacional nos últimos anos defendendo, contra a opinião dos líderes de seu partido, a reforma do atual sistema de financiamento das campanhas eleitorais, que considera um veículo de corrupção na política americana.
Para os analistas, a rápida ascensão de McCain em New Hampshire é mais do que o produto do investimento de tempo e dinheiro que sua campanha fez nos últimos meses no pequeno estado da Nova Inglaterra. Ela reflete, também, a demanda dos eleitores por líderes nacionais mais autênticos depois de quase duas décadas política coreografada por especialistas em manipulação de imagens e informações, que começou com o republicano Ronald Reagan, em 1981, e foi aperfeiçoada nos últimos sete anos pelo democrata Bill Clinton. De acordo com os mesmos analistas, a autenticidade explicaria também os avanços de Bradley sobre Albert Gore, o herdeiro político de Clinton e ainda o favorito de seu partido para disputar a Casa Branca.
Supreendido, na semana passada Bush visitou New Hampshire, que esnobara em dois debates recentes com os demais candidatos republicanos, e prometeu voltar com mais frequência. Esta semana
sua campanha colocará no ar os primeiros comerciais no estado. Também esta semana, Bush fará seu primeiro discurso sobre política externa, para tentar dissipar a impressão de que seu jeito simpático e atraente de fazer política esconde um homem superficial, dono de uma biografia rala, que chegou onde está por ser filho de seu pai e tem escasso conhecimento sobre o mundo que pretende liderar.
Entre outras gafes e deslizes, Bush já chamou os gregos de "grecianos", os kosovares de "kosovarianos", confundiu a Eslováquia com a Eslovênia e deu a entender que endossava o recente golpe militar no Paquistão numa entrevista recente, na qual conseguiu identificar apenas um em quatro chefes de estado.
Com sua aura de invencibilidade quebrada, Bush enfrenta agora um novo panorama. Seus próprios assessores já admitem a possibilidade de uma vitória de McCain em New Hampshire. Esta será mais danosa se o governador do Texas tropeçar em Iowa, estado ao qual também deu pouca atenção até agora e onde o milionário Steve Forbes está investindo pesado e pode supreender.
Menos de três semanas depois de New Hampshire, será a vez de os eleitores da Carolina do Sul se pronunciarem. Trata-se de um estado que tem uma das maiores concentrações de veteranos de guerra e de militares aposentados nos EUA, o que favorece McCain. E, contando com um bom desempenho em New Hampshire, é na Carolina do Sul que o senador do Arizona pode virar o jogo. Seu problema é como continuar no páreo, pois não arrecadou o suficiente até agora para montar campanhas além dos dois estados e financiar uma organização nacional, como a que Bush já tem, com presença em todos os cinquenta estados. Mas seu crescimento eleitoral já começou a reforçar o caixa. Em outubro, arrecadou US$ 2 milhões. E, nos primeiros dez dias deste mês, recebeu US$ 1 milhão em contribuições.
"Duas vitórias seguidas em New Hampshire e na Carolina do Sul podem ser suficientes para embaralhar as cartas e mudar a dinâmica das primárias, dando à campanha de McCain o ímpeto necessário para desafiar Bush nas primárias seguintes", observou hoje William Kristol, ex-chefe de gabinete do vice-presidente Dan Quayle e editor da revista republicana Weekly Standard. Para Kristol, as dúvidas sobre o preparo do governador do Texas para exercer a presidência ajudam a criar um espaço para McCain, um político experiente e pragmático, não menos conservador e com posições muita parecidas com as de Bush, mas com credenciais bem mais sólidas em questões domésticas, internacionais e de defesa.
Um problema potencial para o senador de Arizona é a fama de ter pavio curto, sobre a qual já teve que dar explicações a seu estilo. "Sou culpado de ficar com raiva diante de graves injustiças como as que vejo acontecer com certa frequência no Congresso dos Estados Unidos, mas não insulto ninguém nem perco o controle", disse ele recentemente.
Há registro de pelo menos um episódio, em 1985, de uma discussão recheada de palavrões que McCain, então deputado, teve com um colega democrata, Marty Russo, de Illinois, no plenário da Câmara. Eles só não chegaram à troca de sopapos porque foram apartados a tempo. Em 1993, já senador, McCain alterou-se numa conversa com Edward Kennedy e mandou o senador democrata de Massachusetts "calar a boca". Ao que Kennedy respondeu: "Cale a boca você e comporte-se com um senador."
Mas por ora, essas histórias de valentia não prejudicaram McCain e ajudaram a colocá-lo no centro de um fenômeno nunca visto nesta fase de uma campanha presidencial. Pela primeira vez
um candidato republicano parece ter emergido como o claro preferido da grande imprensa, menos pelas idéias que defende do que por seu potencial de transformar numa disputa de verdade o que prometia, até agora, ser uma coroação do herdeiro da principal dinastia republicana.


