Washington, 12 (AE) - Ele é capaz de ajudar os adversários e trabalhar contra as causas mais caras a seus aliados políticos. Em seus 17 anos no Congresso, votou mais de 80% das vezes com os conservadores. Mas conta vários liberais entre seus amigos e admiradores. No palanque, o senador John Sidney McCain III costuma começar seus discursos avisando que dirá coisas que a platéia não quer ouvir.
Durante um debate, em Iowa, no mês passado, defendeu o fim do subsídio federal à produção de etanol, um programa importante para a economia local. Em New Hampshire, reiterou sua oposição à compra pela Marinha de navios fabricados num estaleiro que é um dos maiores empregadores do Estado, mas que se tornaram desnecessários com o fim da guerra fria. Quando não tem resposta a uma pergunta, faz o que os políticos nunca fazem: diz que não sabe e procurará se informar. Se erra, diz que errou.
Pecados e faltas, McCain já cometeu quase todos e é o primeiro a confessar. Admite, entre outros: ter traído a pátria, porque fraquejou sob tortura como preso de Guerra no Vietnã, assinou uma confissão falsa e depois tentou suicidar-se duas vezes; ter sido infiel à primeira mulher e destruído seu casamento; e ter-se enredado num dos grandes escândalos de corrupção dos anos 80, que envolveu o financiamento de políticos por um banqueiro que acabou na cadeia depois de dar um golpe na praça que custou US$ 2,5 bilhões aos cofres públicos.
Um herói nacional cheio de defeitos, aos quais se devem acrescentar o fato de ser baixinho para os padrões americanos e meio careca, vestir-se mal e ter um certo ar de Charles Chaplin, John McCain personifica, aos 63 anos, a figura política do anticandidato. Com a importante diferença de que tem excelentes chances de capturar a candidatura do Partido Republicano à presidência dos Estados Unidos nas próximas semanas e ser eleito para suceder Bill Clinton na Casa Branca.
A primeira hipótese surgiu com a esmagadora derrota que impôs ao candidato favorito do partido, o governador do Texas, George W. Bush, nas primárias de New Hampshire, na semana retrasada, depois da qual ele passou a ser visto com mais atenção pela imprensa a ponto de merecer a capa das principais revistas semanais.
Essa vitória pode tornar-se irresistível se ele repetir a proeza na Carolina do Sul, no próximo sábado. No fim da semana, a maioria das pesquisas indicava que ele estava empatado ou na frente de Bush - e à frente do vice-presidente Albert Gore, o candidato provável dos democratas no pleito de novembro.
A perspectiva de um triunfo de McCain já fez a maioria dos colunistas conservadores da grande imprensa debandar para seu campo e provocar um mal disfarçado pânico entre os líderes republicanos que controlam a máquina do partido e apostaram todas as fichas em Bush quando ele parecia imbatível, ou seja, há apenas algumas semanas.
Julie Finley, lobista republicana e uma das mais importantes levantadoras de fundos de campanha do partido, deixou claro o desespero que reina entre os conservadores durante uma reunião com financiadores de Bush na Flórida. Ela disse que se McCain ganhar a indicação partidária para concorrer à Casa Branca, vencer e cumprir sua promessa de reformar as leis sobre financiamento de campanhas políticas, as pessoas do grupo político dela "irão todas à falência". Nada contentaria mais o senador de Arizona do que acabar com o que ele chama de "triângulo de ferro" da política norte-americana, formado pelos lobistas, os interesses especiais e os bilhões de dólares bombeados para os cofres das campanhas a cada ciclo eleitoral.
A franqueza e a coragem política de assumir posições contrárias a seu partido e mesmo a seu interesse eleitoral não bastam para explicar a súbita transformação de McCain no que poderá ser o primeiro grande fenômeno da política dos EUA no século 21.
"Com a economia em ótimo estado e as pessoas contentes, a próxima eleição não será disputada em torno de propostas e temas
mas do caráter e da personalidade dos candidatos", disse à Agência Estado Paul Wolfowitz, diretor da Escola de Estudos Internacionais Avançados da Universidade Johns Hopkins, ex-subsecretário de Defesa no governo do presidente George H. Bush e conselheiro de política externa da campanha do filho dele
George W. Bush.
"A ascensão de McCain reflete a rejeição do país a Clinton", disse ele. "As pessoas não estão particularmente interessadas na reforma do sistema de financiamento das campanhas eleitorais, mas vêem em McCain um político com caráter, que diz o que pensa."
Em política externa, uma área na qual McCain é especialista, isso pode ser um desastre. Na política interna e, particularmente na atual campanha presidencial, o estilo direto e sempre surpreendente do senador transformou-se num bálsamo para as feridas que os escândalos em Washington, as mentiras de Clinton e as falsidades do marketing político criou nas relações dos americanos com seus políticos nos últimos tempos.
Uma fonte óbvia de sua popularidade é sua condição de herói de guerra. Outra é seu pragmatismo. Uma terceira, e talvez a mais importante, é sua desconcertante honestidade, uma qualidade que o torna praticamente invulnerável às críticas.
"McCain não é uma pessoa como as outras que você e eu conhecemos ao longo dos anos na política americana", disse Larry Smith ao jornalista Joe Klein, da revista New Yorker. Smith é democrata, especialista em política de defesa e trabalhou para o ex-senador Gary Hart, um dos amigos liberais de McCain cuja candidatura presidencial, em 1984, terminou com um escândalo sexual.
"McCain vem de um lugar antigo", disse Smith. "Seu sentido de honra não é contemporâneo - é absoluto e não relativo - e isso torna difícil para nós compreendê-lo inicialmente, porque todos os modelos políticos recentes são uma variação do tema do artifício (político)".
Para Smith, a pergunta que todo candidato se faz numa campanha é: como vou me apresentar ao público? "Essa é uma pergunta que McCain não se faz porque não tem escolha na resposta", disse ele.