Mbeki, escolhido de Mandela, encarna o político moderno.
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 27 de maio de 1999
Por GILLIAN SLOVO*, da Newsweek (assinatura obrigatória) 
Johannesburgo, 28 (AE-NEWSWEEK) - Não pode ser fácil para nenhum político pôr-se no papel de Nelson Mandela. Mas Thabo Mbeki, que logo festejará seu 57º aniversário, tem mais sorte que a maioria: Mandela o escolheu, preparou-o e cada vez mais lhe foi cedendo a condução dos negócios do país. Agora Mbeki tem pela frente o desafio de governar por conta própria.
Acompanhar os passos de Thabo Mbeki até à presidência é viver novamente o milagre das mudanças na áfrica do Sul. Enquanto Nelson Mandela, na companhia de Govan, pai de Thabo, cumpria pena de prisão perpétua, Thabo deixou o país, indo primeiro estudar na Universidade Sussex e depois trabalhando em regime de tempo integral para o Congresso Nacional Africano (CNA), proscrito na época. Foram anos difíceis para o CNA; todos os líderes estavam exilados ou presos. O que restava era um pequeno grupo de membros fiéis liderados por Oliver Tambo, que ia de um país africano para outro em busca de apoio. Não foi fácil; entre 1964 e o levante de Soweto em 1976, o CNA não disparou um só tiro, nem de raiva nem em autodefesa, na áfrica do Sul. Mas naqueles anos Thabo Mbeki e sua geração aprenderam a operar no cenário global e a viver num mundo de realpolitik. As experiências que contribuíram para a formação política de Mandela haviam sido as campanhas públicas de desafio nos anos 50
ao passo que Mbeki se instruiu no sigilo e na diplomacia de uma organização clandestina que dependia da hospitalidade de outros países.
Esta diferença pode revelar-se interessante sob diversos aspectos.
Mandela e Mbeki são xhosas e ambos nasceram na zona rural do Transkei.
Mas, enquanto Mandela conserva firmes laços emocionais com sua terra natal e lá volta com frequência, a primeira visita da família de Thabo Mbeki ao seu local de nascimento em Mbewueleni ocorreu só em 1998 - nada menos que oito anos depois de sua volta ao país. A atitude de Mandela está permeada pela noção de comunidade, família e apego, enraizados na zona rural. O desinteresse de Mbeki por seu passado é muito mais típico do espírito empreendedor e urbano da nova classe média negra.
E, apesar de suas origens comuns, as diferenças entre os dois homens têm a ver não só com a geografia, mas também com a diferença de gerações. Se Mbeki passou seus anos de formação fora da áfrica do Sul, Nelson Mandela raramente viajou para além de suas fronteiras, pelo menos até ser libertado. Por mais astuto que seja, Mandela é um político à moda antiga, motivado por convicções pessoais. Mbeki é influenciado por acontecimentos políticos do exterior e fica muito mais à vontade usando lemas progressistas ao estilo dos trabalhistas, como a "Renascença africana", para exprimir suas idéias.
Um dos problemas de Thabo Mbeki é que, por mais agradável que ele seja, falta-lhe o famoso calor humano de Mandela. Com efeito
a imagem que o perseguiu durante seus primeiros anos como vice-presidente foi a de um teórico fumador de cachimbo que evitava o contato com o povo. Não mais. Hoje em dia, Mbeki anda por aí dando apertos de mão, beijando bebês e ouvindo o que as pessoas têm a dizer. A mudança é notável: Este homem que a imprensa ridicularizou por defender a censura tem uma imagem pública que brilha mais a cada dia.
Talvez a estrela de Mbeki esteja subindo exatamente porque o tempo de Mandela chega ao fim. Mandela foi o grande pacificador; Mbeki é áspero.
A palavra-chave de Mandela é reconciliação, ao passo que Mbeki já declarou publicamente: "Precisamos irritar-nos com a história da escravidão de nosso povo." Ou "a lembrança do apartheid se apaga e talvez esteja havendo perdão em demasia". Mandela recebeu de braços abertos o relatório da Comissão da Verdade e Reconciliação, mas Mbeki preferiu criticar a postura da comissão para com o CNA.
A retórica de Mbeki repercute profundamente no povo. Na vasta maioria da população o que se fala hoje em dia não é tanto sobre o prazer da libertação, mas os imperativos da mudança. Em alguns círculos municipais, Mandela foi rebaixado da condição de santo e transformado numa figura paterna ineficaz - cada vez mais considerado muito tolerante com os brancos e com a criminalidade. Eles esperam que o Thabo Mbeki de fala dura altere tudo isso.
A grande realização de Mandela como presidente foi mostrar que o império da lei seria respeitado a partir da cúpula. O próprio Mandela é a imagem da probidade e sua tolerância é lendária, às voltas com a língua às vezes ferina de Mbeki e com sua tendência de proibir dissenções e desacordos. Agora com a sucessão garantida, Mbeki está mais seguro do que antes. O desafio que ele tem pela frente não é tanto nomear seus aliados políticos, mas encorajar mudanças no poder econômico que possam abarcar um maior número dos habitantes de seu próprio país e ao mesmo tempo resguardar-se contra sua propensão para soluções autoritárias que têm uma longa história na áfrica do Sul.
As necessidades do país mudaram profundamente desde que Nelson Mandela chegou ao poder em 1994. Nas vésperas da primeira eleição democrática na áfrica do Sul, a perspectiva de uma reação armada da extrema direita estava em todas as mentes. Agora ninguém leva a sério a perspectiva de uma insurreição armada. A ameaça à áfrica do Sul vem da pobreza de seu povo, racialmente tão preconceituoso quanto antes. O futuro presidente Thabo Mbeki pode não ter o carisma de Mandela, mas acontece que a conciliação que Mandela propiciou já não é tão importante. Quando Mbeki usa palavras mais fortes que Mandela, quando fala de redistribuição, de ação afirmativa e do renascimento africano
está refletindo essa mudança. Talvez seja disto que a áfrica do Sul precisa, mais que tudo. (*) Gillian Slovo é filha do ex-líder do Partido Comunista Sul-Africano, Joe Slovo, e escritora. Seu mais recente livro é uma memória de família, "Every Secret Thing".


