Após a leitura da sentença, o pecuarista deixou o fórum sem dar entrevistas
Após a leitura da sentença, o pecuarista deixou o fórum sem dar entrevistas | Foto: Fotos: Gustavo Carneiro



Ponta Grossa - Em um julgamento com duração de quase 15 horas, o Tribunal do Júri de Ponta Grossa condenou, às 23h45 de quinta-feira (22), o pecuarista Mauro Janene Costa, pela morte da professora Maria Estela Correa Pacheco, em outubro de 2000. Um corpo de jurados formado por sete mulheres acatou a versão apresentada pelo Ministério Público e pelo assistente de acusação e condenou o réu pelo crime de homicídio simples. Elas entenderam que Janene Costa atirou a vítima da sacada de seu apartamento, no 12º andar do Edifício Diplomata, no centro de Londrina. A pena aplicada pelo juiz Luiz Carlos Fortes Bittencourt foi de 11 anos em regime fechado. Porém, o réu tem o direito de recorrer em liberdade.

O julgamento foi transferido para Ponta Grossa a pedido da defesa de Costa, sob alegação que a comoção popular poderia influenciar a decisão dos jurados caso ocorresse em Londrina. Janene Costa foi condenado, mas se livrou de agravantes, como a acusação de fraude, por ter supostamente alterado a cena do crime e criado outra versão para os fatos. A advogada Gabriela Roberta Silva, que defende Janene Costa, vai entrar com recurso no Tribunal de Justiça. Segundo ela, o laudo que aponta as causas da morte de Estela Pacheco contém erros grosseiros e não expressa a verdade.

Durante o júri, Silva alertou aos jurados que o Ministério Público ressaltou no documento só o que lhe interessava para a condenação do réu. "O laudo foi produzido por um perito formado em direito, totalmente leigo em medicina, portanto sem competência para fazer as afirmações que fez", criticou. Entre os apontamentos feitos no laudo assinado por três peritos, consta que a vítima já estava morta quando caiu do prédio. Ela criticou a ausência dos peritos no julgamento e chegou a questionar a validade do júri, mas o juiz informou que as testemunhas em questão não eram obrigadas a comparecer. O perito responsável pelo laudo não foi localizado. Segundo informações, estaria vivendo na China.

O réu respondeu aos questionamentos da acusação e relatou que os dois haviam consumido maconha no apartamento e que Estela estava sonolenta, sentada no chão da sacada do apartamento. Ele disse que a abraçou por trás e a suspendeu com a intenção de levá-la para dentro do apartamento, mas decidiu se aproximar do parapeito para eles "curtirem o visual". "Estávamos ali na madrugada, nos divertindo. Foi quando por um momento, ela escapou de minhas mãos. Eu tentei segurá-la pelos braços, mas não consegui", relatou. "Na hora do ocorrido, liguei imediatamente para o 190. Os policiais não demoraram 10 minutos para chegar ao prédio."

'FRIO NA BARRIGA'
Após a leitura da sentença, Janene Costa deixou o fórum sem dar entrevistas e se limitou a dizer que estava "cansadíssimo". Na manhã desta sexta-feira (23), ele conversou com a reportagem na recepção do hotel onde estava hospedado, em Ponta Grossa. Apesar da condenação, Janene Costa diz ter sentido alívio após o julgamento. "Tirei um peso das costas e agora estou com um frio na barriga", disse, apontando com as mãos as partes do corpo citadas. "Pela primeira vez, pude expor minha versão para o juiz, para a família da Estela. Isso dá um certo alívio. Agora vamos recorrer da decisão, pois nunca tive a intenção de matar ninguém", afirmou.



Janene Costa disse que esperava um julgamento conturbado por manifestações de familiares e amigos de Estela, mas que se surpreendeu. "Todos foram muitos respeitosos nesse julgamento. Os parentes da Estela, o próprio promotor de Justiça. Foi uma surpresa positiva", disse.

Laila Menechino: "foi um julgamento justo, agora vamos acompanhar a fase de recursos"
Laila Menechino: "foi um julgamento justo, agora vamos acompanhar a fase de recursos"



ALÍVIO
Entre os familiares presentes estavam a filha de Estela, a jornalista e advogada Laila Menechino, a irmã da vítima, Maria Eliza Correa Pacheco, e mais o pai, o avô, o marido e o filho de Laila. Eles chegaram ao fórum pouco antes do início do júri com uma camiseta que pedia "Justiça para Estela", mesmo nome do movimento criado pela filha da vítima em 2015.

Logo após a sentença, ela comentou que sentiu um alívio muito grande. "Tenho muito a agradecer a justiça de Ponta Grossa pela determinação em realizar esse julgamento. Eu não sei nem o que dizer. Dá um alívio muito grande, eu não estou nem acreditando", externou. "As pessoas entenderam o que aconteceu, foi um julgamento justo, agora vamos acompanhar a fase de recursos, acrescentou.

A angústia da família durou quase 18 anos, entre sete adiamentos de audiências e sete de julgamentos. "Cada vez que um julgamento era adiado, era um golpe muito duro. É uma coisa com a qual não se tem como acostumar. A dor só aumentava a cada esperança frustada", disse Menechino. Maria Eliza Pacheco também comentou a decisão do júri. "Agora vamos poder, enfim, começar a enterrar minha irmã de verdade. Era tudo que a família esperava", disse.

Tanto o MP como o assistente de acusação consideram a pena proporcional e descartaram entrar com recursos. "A prova foi apresentada de forma clara e os jurados entenderam que havia a necessidade da condenação. A quantidade de pena parece-nos justa e não existe interesse em qualquer tipo de recurso, informou o assistente de acusação Marcos Ticianelli.

JULGAMENTO
O júri começou pouco depois das 9 horas. Foram ouvidas as testemunhas de acusação. Ilda Santos e Maria Eliza Correa Pacheco, amiga e irmã da vítima, respectivamente. Ilda Santos relatou que presenciou marcas de agressão no corpo de Estela e que aconselhava a amiga a não mais se encontrar com Janene Costa. Já Maria Eliza, ouvida na condição de informante, pelo parentesco com a vítima, abriu a fala dizendo que a irmã caçula era uma pessoa "cheia de vida", que alegrava a casa da família. "Ela era professora de música, ensaiava corais de crianças, inclusive de alunos com deficiência. Ela tinha alegria em viver, jamais iria tirar a própria vida", manifestou-se, ao rechaçar pontos do processo que sugeriam que Estela poderia ter tendência suicida pela combinação de álcool e droga.

Na sequência, a defesa trouxe duas testemunhas para apresentar pareceres técnicos. O primeiro foi o perito Leocádio Casanova, que questionou a forma como foi feita o laudo pericial do corpo da vítima anexado ao processo. "Existem muitas ilações no laudo. Um perito não pode sugerir o que poderia ter acontecido e, se não tem competência técnica, não pode também afirmar a causa da morte, por exemplo. Isso é função de um médico legista", argumentou. Provocado pela acusação, Casanova afirmou que foi contratado pela defesa para fazer o parecer técnico.

O médico legista Francisco Moraes Silva, que já ocupou cargo de chefia no IML (Instituto Médico-Legal) do Paraná, foi a quarta e última testemunha ouvida. Em quase três horas de argumentações, ele também desqualificou o laudo, explicando conceitos da medicina legal. "As lesões apresentadas só poderiam ocorrer com a presença de vida. É impossível aparecer lesões vitais em um cadáver, porque não há circulação de sangue", pontuou. A promotoria expôs o fato do legista ter sido processado por produzir parecer médico privado enquanto era servidor estadual.

O promotor de Justiça Almir Santos e o advogado assistente de acusação, Marcos Ticianelli, trabalhar com as contradições do réu em depoimentos dados por ele nos últimos 17 anos. "Nos primeiros depoimentos ele relatou que os dois estavam brincando de pular do prédio e que, não sabe o porquê de ela ter pulado de verdade. Depois mudou a versão, disse que estava sentada no parapeito da sacada e que teria enroscado o pé. Agora, a versão já é outra. Nada bate", disse o promotor aos jurados. O réu disse que pode ter dado outra versão no início pelo fato de estar assustado com o fato e por intimidações que recebeu na delegacia.

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