Recife, 09 (AE) - A escassez de água no semi-árido do Nordeste é provocada, em grande parte, pelo mau gerenciamento dos recursos hídricos. A tese foi defendida pelo professor do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (USP) Aldo Rebouças, durante a 9.ª Conferência Internacional de Captação de água de Chuva, nesta semana, em Petrolina, no interior de Pernambuco. Rebouças apontou como exemplo a iminência de um colapso no abastecimento da região metropolitana do Recife - onde o racionamento deixa parte da população sem água em nove de cada dez dias -, por causa do desperdício de 58% da água tratada em vazamentos, ligações clandestinas e má administração.
"Há dez anos já se sabia que se iria enfrentar um período de escassez", afirmou o professor. "Mas não se tomaram providências." Ele enfatizou que o litoral, em tempos normais, não sofre transtornos com recursos hídricos e, por esse motivo, é preciso adotar a mentalidade dos países ricos, que envolve controle do uso da água, eficiência e consciência do seu valor. O professor assinalou que em Barcelona, na Espanha, a tarifa da água é sazonal, custando três vezes mais no verão, quando o consumo é maior e a oferta, menor.
Na avaliação de Rebouças, no Nordeste não chove pouco - se forem levados em conta os índices pluviométricos do Oriente Médio, centro-oeste norte-americano e ásia Menor. "Há uma irregularidade de chuva que é benéfica, já que chove forte e por pouco tempo, impedindo a evaporação, cuja taxa é muito alta na área", comentou.
Cultura - Na sua palestra Perspectivas de Uso Eficiente de água no Nordeste, Rebouças ressaltou que o problema do semi-árido brasileiro é mais cultural do que hidrológico e a transposição do Rio São Francisco não é solução para a região. "O que pode acontecer é fazer a água sair do rio para se evaporar e se perder no caminho", alertou, ao destacar que a miséria existente no sertão é a mesma das populações que habitam as margens do São Francisco.
"É uma situação vexatória que mostra que falta empenho para se dar uma solução", observou o professor, para quem o desafio essencial é superar a falta de percepção de que a água é um capital ecológico e fator competitivo do mercado global.
Como outros pesquisadores que participaram do encontro de Petrolina, Rebouças defendeu a realização de pequenas obras, como cisternas e poços tubulares, que envolvam o pequeno agricultor e abasteçam pequenas comunidades.
Um outro ponto bastante ressaltado na conferência, que começou na terça feira e terminou hoje, foi a necessidade de a população adotar providências que lhe permitam conviver e produzir com a seca. "A cultura brasileira, especialmente a nordestina, é a de esperar por Deus e pelo governo", criticou o professor. "Educação é fundamental, porque fica difícil se botar algo na cabeça de pessoas que se deslumbram com promessas e cestas básicas", acrescentou Rebouças, destacando que 80% dos habitantes do semi-árido brasileiro são analfabetos.

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