Matança de Atlanta reacende debate sobre arma de fogo
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quinta-feira, 29 de julho de 1999
Por Farhan Haq, da IPS 
Nova York, 30 (AE-IPS) - "Espero que isto não arruine sua jornada de negócios", foram as últimas palavras pronunciadas pelo investidor perturbado antes de abrir fogo e matar nove pessoas em duas empresas financeiras em Atlanta, Estados Unidos.
As balas disparadas ontem por Mark Barton, um ex-químico de 44 anos, de duas pistolas também feriram 12 pessoas e reacenderam o debate sobre as armas de fogo no país.
Barton se suicidou depois da matança de ontem, mas dois dias antes assassinou sua mulher e dois filhos golpeando-os na cabeça com um martelo.
Os assassinatos ocorreram três meses depois que dois alunos da escola secundária Columbine, no Estado de Colorado, mataram a tiros 12 de seus companheiros e um professor antes de se matarem.
"São tragédias inqualificáveis", disse o prefeito de Atlanta, Bill Campbell, depois dos homicídios de ontem, mas suas palavras também são aplicáveis à onda de tiroteios ocorridos nos Estados Unidos.
Depois do massacre de Columbine em 20 de abril, políticos tentaram tranquilizar a opinião pública prometendo maiores restrições às armas leves e outras medidas para impedir futuros banhos de sangue.
Mas quando Barton protagonizou as mortes de ontem, essas gestões já haviam perdido o vigor.
Depois das mortes em Columbine, o presidente Bill Clinton pediu ao Congresso que a idade legal de porte de armas fosse aumentada para 21 anos, para que fossem investigados os antecedentes dos futuros compradores de pistolas e que recaia sobre os pais a responsabilidade de crianças que portem armas de fogo.
Pesquisas realizadas depois do massacre de Columbine revelaram que dois terços do público apoiavam as medidas solicitadas por Clinton.
Mas a Associação Nacional do Rifle (NRA), um poderoso grupo de pressão dos EUA, suportou com facilidade a publicidade contrária e seu presidente, o ator Charlton Heston, declarou que era vital que os americanos tivessem direito a possuir armas.
Heston qualificou as matanças em Atlanta como obra de "um adulto não adaptado".
Deputados defensores da NRA limitaram a efetividade da legislação para restringir as vendas em exposições de armas, com a ajuda da maioria republicana do Congresso.
O projeto de lei resultante foi derrotado, em grande parte por legisladores do governante Partido Democrata, no mês passado.
O massacre de Columbine provocou "uma guerra cultural" dirigida contra os videogames violentos e a música niilista, cujos assassinos Eric Harris e Dylan Klebold eram adeptos.
Desde então, deputados conservadores, à frente dessa guerra cultural, tentaram proibir os jogos extremamente violentos como "Doom", e exigir maior censura aos filmes.
Seus argumentos se fortaleceram no final da semana passada, depois do festival de música Woodstock 99, na localidade de Roma (NY), onde pelo menos cinco mulheres denunciaram ter sido vítimas de estupro durante os três dias de espetáculo.
Mas o tiroteio de Atlanta não tem muito a ver com essa guerra cultural.
Os amigos de Barton, que se converteu em um "day trade", ou seja, que comprava e vendia ações na Internet, o consideravam amistoso e divertido.
Alguns meios de comunicação interpretam que o ataque armado de Barton com pistolas de 9mm e calibre 45 se originou na tensão causada pela especulação financeira. Mas o passado do homicida prova que ele era instável.
Antes de atacar seus colegas investidores, Barton assassinou sua família em sua casa. Este ato levou a polícia a perguntar-se se também haveria matado a golpes sua primeira mulher e sogra em 1993, como suspeitava-se na época.
Sendo assim, o massacre de Barton não pode ser explicado como algo isolado, mas como parte de uma tendência assassina.
Esse fato poderia fazer com que os legisladores se perguntassem como é que uma pessoa tão perigosa pode adquirir armas de alta potência.
Os Estados Unidos são conhecidos por terem algumas das leis sobre porte de armas mais liberais do mundo industrializado. Mas a reação do público depois do massacre de Columbine pelo menos levou os políticos a dar alguns passos para restringir a venda e posse de pistolas.
Na Califórnia, alguns tipos de arma de fogo foram proibidos, atitude bem recebida por aqueles que defendem o controle do porte, já que muitas leis estaduais apenas proíbem modelos de pistolas e permitem a venda de similares.
No Colorado, os deputados estaduais derrotaram vários projetos de lei que pretendiam liberalizar as leis sobre porte de armas.
Alguns legisladores democratas do Congresso propuseram um "período de tempo nacional" para a entrega de armas de mão, para que os compradores não se aproveitem das normas em estados onde é feita apenas uma verificação superficial de seus antecedentes antes da venda.
Segundo dados da NRA, Geórgia, o Estado onde ocorreu a matança de ontem, é um dos vários onde não se exige uma permissão para as pessoas que queiram comprar armas, embora ela seja exigida para porte de pistolas.


