A palavra assassino deriva etimologicamente dos usuários de haxixe, grupo iraniano do século XII, que promovia a eliminação física contra autoridades dominantes por uma série de razões decorrentes de questões seculares. Em nossos conturbados tempos, os assassinos estão por toda parte. Dizemos, pela nossa lei, que são autores de homicídios, tipificados com qualificados, que vão de ‘‘simples’’ (mas não existe o complicado) ou ‘‘hediondo’’ (tão pouco existe o suave). Traduzindo: existe o assassinato premeditado, ou provocado por emoção violenta, e os que têm como causa motivos fúteis. São matadores. E como matam!
Poderemos inserir nesse ato de tirar a vida do semelhante aqueles que são letais com os sonhos. Entenda-se sonho como legítima aspiração de desejar algo de melhor e saudável para si mesmo, para alguém, para a sociedade. Um fato da semana, entre outros, vai ajudar a entender esse raciocínio calcado na violência urbana.
No Rio de Janeiro, entendeu-se que se deve colocar fim às tragédias provocadas por balas perdidas, evitando que a Polícia troque chumbo, nos morros, com os traficantes. Assim, num novo bangue-bangue, deslocou-se pessoalmente para o Complexo do Alemão o comandante-geral da PM, coronel Francisco Braz. Poliglota e negro. Chegou lá com cara e atitudes de bom amigo. Foi recebido a tiros e por uma molecada fazendo com os dedos os sinais da sigla CV – o Comando Vermelho, organização criminosa que infesta e amedronta o Rio. Os atiradores eram assassinos de sonhos. Quer dizer: aparece alguém disposto a implantar uma nova política, outro conceito de relacionamento, e é recebido assim.
Os assassinos de sonhos estabeleceram que traficante é herói e policial bandido; que o vendedor de cocaína merece respeito e consideração e os agentes da lei nada; habilidosos, implantam a sua própria segurança, criam rondas e glorificam o crime. Antes que patrulheiros ideológicos partam para a picaretagem ideológica, observe-se que as incursões nos morros costumam atingir procurados e adeptos mas também, e muito, os inocentes. Cujo único pecado, sem ter outro lugar para morar, é ficar por lá mesmo. Portanto, se o Estado se ausenta e o crime ocupa espaço, como na lei da física, há algo terrível por trás das cenas de sempre na TV.
Ao investir sobre o manequim de humanista do comandante da PM os traficantes deixaram claro que está difícil sonhar. E o sonho por dias melhores passa por este episódio. Aos poucos, estamos dizendo, com outras palavras, que para alguns, que vão se tornando muitos, é lícito roubar, traficar, andar armado, molestar sexualmente a indefesos e usar a violência, sempre sedutora, como forma legítima de ação. Seria esta uma nova forma de romper com pactos sociais? Ou simplesmente ausência de regras? Os assassinos de sonho se transformaram em franco-atiradores disparando balas perdidas sociais

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