São Paulo, 17 (AE) - Os três anos da morte dos 19 sem-terra em Eldorado de Carajás (PA) foram lembrados hoje em manifestações que reuniram 20 mil pessoas nos Estados do Pará, Bahia, Pernambuco, Ceará e Rio Grande do Norte. O tom pacífico dos atos de repúdio ao conflito não esvaziou a determinação das lideranças do Movimento dos Sem-Terra (MST) de ver punidos os autores dos assassinatos. Além de pedir a "pena máxima" para os policiais militares acusados, o líder do MST Raimundo Nonato Souza disse, em Belém, que o movimento pretende ver julgados num tribunal internacional o governador Almir Gabriel, o secretário de Segurança, Paulo Sette Câmara, e o ex-comandante da PM Fabiano Lopes: "Eles ordenaram o massacre, mas foram excluídos do banco dos réus."
"Essa é uma opinião mais ideológica do que legítima", disse Pedro Bentes, advogado e assessor especial do governo do Pará no caso de Eldorado, comentando a afirmação de Nonato Souza. Na época do conflito, Bentes era procurador-geral do Estado. Ele cita o único parecer internacional sobre o caso, datado de fevereiro de 1998, emitido pela Comissão de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA), em Washington. Na ocasião, representantes da comissão chamaram as lideranças do MST e do governo do Pará para averiguar o andamento do processo e concluíram que a Justiça brasileira estava atuante - os policiais estavam, no período, prestando depoimentos.
No dia 13, o Superior Tribunal de Justiça dediciu transferir o julgamento dos 155 policiais para Belém, uma vez que grande parte dos acusados é integrante do batalhão da Polícia Militar de Marabá e continua exercendo suas funções naquele município. Bentes afirmou que, tão logo o processo retorne ao Tribunal de Justiça do Pará, o governo estadual pressionará para "a definição imediata da data do julgamento".
O secretário nacional de Direitos Humanos, José Gregori, reconhece, no entanto, que a demora no julgamento dos acusados não é boa para a imagem do País. Mas espera que a opinião pública externa compreenda o conteúdo político das manifestações que marcaram o aniversário do conflito. "O exterior já sabe que a questão da terra no Brasil tem uma parte legítima, que acaba resultando em sangue e morte de inocentes, mas tem também uma parte política e ideológica." Gregori considera esse processo o de maior repercussão nacional e internacional dos últimos dez anos e espera que o julgamento esteja concluído ainda neste semestre.
Em Belém, o comando da Polícia Militar deu instruções para que os oficiais não se expusessem às provocações dos manifestantes. Na Curva do S, em Curionópolis, onde os lavradores foram mortos, foi realizado um culto ecumêmico em memória das vítimas. O MST inaugurou um monumento no formato do mapa do Brasil, representado por 19 pés de castanheiras. O Pará foi representado por 60 pedras pintadas de vermelho. "Isso simboliza o sangue dos 60 sobreviventes do conflito", explicou a líder do MST na região, Isabel Rodrigues.
O clima mais tenso foi registrado na manifestação dos 2 mil sem-terra na Destilaria Liberdade, em Escada, na Zona da Mata penambucana, invadida há uma semana pelo MST. Uma missa campal foi celebrada pela manhã, por representantes das Igrejas Católica e Anglicana. Para reverenciar os companheiros mortos, o coordenador-geral do movimento em Pernambuco, Jaime Amorim, citando a Bíblia, disse que "o sangue dos trabalhadores serve de semente para nascer outras dezenas e centenas de lutadores do povo". Ele disse que a ameaça de violência não intimida os militantes: "Vamos resistir", disse Amorim, em tom de ordem, ao referir-se ao mandado de reintegração de posse que determinou a imediata saída dos sem-terra do pátio da usina.
Em Salvador, a Polícia Militar preocupou-se mais em coordenar o tráfego para que transcorresse tranquila a manifestação dos cerca de 5 mil sem-terra na Praça Municipal, centro da capital. Os sem-terra reivindicaram o assentamento de 3 mil famílias no Estado. Amanhã, os 2 mil manifestantes que realizam atos públicos em Natal pretendem pressionar as autoridades estaduais acampando na frente da sede do governo. Eles reivindicam a desapropriação de um loteamento e a doação de um prédio público.
Pelo menos 450 trabalhadores sem-terra estão acampados desde a madrugada de ontem na frente da sede do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) em Fortaleza. Eles pretendem reiniciar as negociações sobre a desapropriação de quatro fazendas.

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