Martins Cardozo diz desconfiar de articulação política para prejudicar CPI
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domingo, 30 de maio de 1999
Por Flávio Mello 
São Paulo, 31 (AE) - O presidente da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) dos Fiscais na Câmara de São Paulo, José Eduardo Martins Cardozo (PT), afirmou desconfiar que a estratégia usada pela vereadora Maeli Vergniano (sem partido) - de fazer acusações contra funcionários da comissão - pode ser parte de uma articulação política maior para "desestabilizar a CPI e evitar eventuais processos de cassação" dos parlamentares investigados. No sábado (29), Maeli afirmou, em depoimento à CPI dos Fiscais, que o assessor de Cardozo Alexande Mazza - acompanhado pelo ex-motorista Elizeu Sanches dela - teria oferecido R$ 5 mil para duas testemunhas apresentar provas contra ela.
A declaração provocou tumulto e a sessão foi encerrada sem a conclusão do depoimento da parlamentar, que alegou estar emocionalmente abalada. "Desconfio da existência de uma articulação política maior para desestabilizar a comissão, influir no relatório final e evitar eventuais pedidos de cassação de mandatos", disse hoje Cardozo.
Os vereadores governistas reagiram contra a declaração de Cardozo. "Certamente, a vereadora pode ter comentado a sua intenção com um ou outro colega de bancada, mas não houve aticulação política nenhuma para que isso ocorresse", afirmou o vereador Miguel Colasuonno (PPB).
"Se existisse, eu estaria sabendo, mas não é procedente que tenha sido articulada pela bancada governista", disse o líder da bancada do PPB na Câmara, Paulo Frange.
Ele lembrou que, desde o início dos trabalhos da comissão, ocorreram várias tentativas de desmoralizar integrantes da CPI dos Fiscais. "Isso ocorreu com o Mutran (Wadih Mutran), Vita (Brasil Vita) e o Mílton (Mílton Leite)", relembrou Frange. A novidade nas denúncias feitas por Maeli é o suposto suborno de testemunhas para obtenção de provas, o que foi negado por Sanches em novo depoimento ontem (30) à Polícia Civil.
No sábado, Cardozo anunciou que Maeli iria o acusar de estar usando um carro de chapa fria, cedido por uma montadora. As acusações devem provocar pronunciamentos em plenário amanhã (01). "Inegavelmente, esse é um fato sobre o qual o PT nunca pensou, mas eles não são infalíveis", antecipou-se Colasuonno.
A líder do PT na Câmara, Aldaíza Sposati, disse preferir não acreditar que a estratégia usada por Maeli não faça parte de uma organização maior da bancada governista. "O Cardozo não está usando carro de nenhuma empresa paga com dinheiro público, mas, se realmente quiserem vir para cima, tudo bem, porque há uma diferença muito grande entre o PT e a maioria da bancada governista", afirmou.
A acusação de uso de carro com chapa fria pela segurança de Cardozo havia sido comentada por alguns vereadores governistas, mas a denúncia não prosseguiu porque o presidente da CPI dos Fiscais tem documento da General Motors (GM) informando a procedência e a cessão do carro. Há meses, vereadores governistas comentam em conversas reservadas que os parlamentares do PT não são "santos".
De acordo com assessores políticos da bancada governista
alguns parlamentares estariam constragidos de levar adiante a cassação dos vereadores investigados. Eles temem, entretanto, o efeito negativo que uma decisão dessas poderia acarretar à Câmara e nos desempenhos eleitorais na disputa em 2000.
Na prática, se a CPI dos Fiscais for desmoralizada e houver dúvida sobre a conduta dos assesores do presidente da comissão, os relatórios parciais emitidos e os que devem ficar prontos na próxima semana poderão perder a força e justificar uma outra postura do plenário no momento de decidir o futuro dos parlamentares supostamente envolvidos.
O assessor de imprensa de Maeli, Boaventura Cisotto Netto, disse hoje que a denúncia do uso do carro da GM era uma estratégia conhecida somente pela cúpula do gabinete da vereadora. De acordo com Cisotto Netto, essas informações seriam passadas ao Ministério Público Estadual (MPE) e o impacto foi "quebrado" com a antecipação, pelo presidente da CPI.
Em nota à imprensa, Cisotto Netto afirma que "tais fatos eram confidenciais". "Deduz-se que o gabinete da vereadora foi violado por escuta criminosa, ou, o que é mais grave, seus detratores-inquisidores possivelmente plantaram em seu gabinete um capanga, o que configuraria atitude imoral, criminosa e ignóbil." Cardozo disse que deve entrar com ação judicial por danos morais.


