Martello mandou instalar microcâmera
Guarulhos, 13 (AE) - Como presidente da Câmara Municipal de Guarulhos, o vereador Fausto Martello (PPB) encomendou e pagou, em março de 1997, pela instalação de uma microcâmera na sala da presidência. Segundo Sérgio Luiz Deboni, diretor da Casa, o interesse das gravações era obter provas contra outros parlamentares. O material só seria utilizado caso eles tentassem cassar o mandato de Martello, principalmente por causa do bom relacionamento que tinha com o prefeito Néfi Tales (PDT).
A reportagem localizou o empresário Carlos Xavier, dono da Comexi, que presta serviços para o Legislativo guarulhense desde 95, na manutenção técnica do sistema de som e vídeo. Ele admitiu que instalou pessoalmente a microcâmera. "O serviço não custou mais do que R$ 1 mil", disse. As gravações têm boa imagem, mas o som é de péssima qualidade. Isso deve exigir do MPE um trabalho acurado de perícia.
O diretor não soube informar quantas fitas já estão em posse dos promotores nem o teor das demais gravações. "Nunca escutei nada", garantiu ele, em entrevista por telefone. "Apenas guardava em minha casa."
Segundo Deboni, um aparelho de videocassete ligado à filmadora ficava escondido dentro de um armário, na sala da presidência, e era acionado por um assessor de Martello, José Carlos Patrão. A reportagem tentou contatá-lo por telefone desde sábado, mas até hoje à noite Patrão não respondeu às mensagens da caixa postal.
O assessor vinha sendo procurado pela polícia e pelo MPE desde o dia 7, quando teve a prisão preventiva decretada por suposto envolvimento em esquema de extorsão. Deboni está acompanhando de longe as investigações. "Eu queria estar na cidade, mas, por precaução, achei melhor ficar fora", disse, no sábado à noite, em entrevista exclusiva. Ele pediu que o seu atual endereço não fosse revelado. Leia abaixo os principais trechos da entrevista: Agência Estado - Como foram obtidas essas gravações? Sérgio Luiz Deboni - O vereador Fausto Martello (então presidente da Câmara) ordenou a colocação de uma microcâmera dentro do aparelho de ar-condicionado, que fica na parede, atrás da mesa do presidente. O microfone foi instalado em um pequeno furo no interruptor de luz e o videocassete ficava em um armário da sala, trancado à chave. O Patrão (José Carlos, assessor de Martello), ligava o equipamento antes de todas as sessões, às quartas-feiras. Se vocês forem lá, poderão conferir que ainda há vestígios, como o furo no interruptor e uma canaleta na parede, por onde passavam os fios da câmera. AE - Por que a microcâmera foi instalada? Deboni - O Martello mandou o funcionário de uma empresa prestadora de serviços da Câmara instalar o equipamento. As gravações ocorreram todas as quartas-feiras, de março ou abril de 1997 até agosto de 1998. Ele esperava gravar os parlamentares tentando "fazer acertos" e depois usar essas fitas para pressioná-los. AE - O senhor tinha acesso às fitas? Deboni - Sim, eu sempre soube de tudo, desde o início. Martello mandou retirar a câmera, no ano passado, quando rompemos politicamente. Ele temia que eu denunciasse o fato, pois nenhum vereador até hoje sabia dessas gravações. Fiquei com várias dessas fitas, mas nunca assisti a nenhuma delas. Elas estão com o Ministério Público Estadual, mas algumas cópias ficaram comigo para assistir depois. Não tive tempo para isso. AE - O senhor guardava todas as gravações? Deboni - Há ainda muitas outras fitas, mas não sei onde estão. Muito provavelmente foram guardadas pelo Patrão, que está foragido. AE - Como foi o seu depoimento no MPE? Deboni - Fiz tudo conscientemente. Prestei depoimento durante uns 10 dias. Queria falar aos promotores da cidade no Grupo de Ação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaecco), no centro de São Paulo, pois achava o local mais seguro. Depois aproveitei a minha licença médica para passar um tempo fora.





