Marshals protegem goiano da polícia da Filadélfia
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quinta-feira, 13 de abril de 2000
Por Renan Antunes de Oliveira, especial para a AE (assinatura obrigatória) 
Nova York, 14 (AE) - O carpinteiro brasileiro Leonardo Tiago dos Santos está vivendo escondido em algum lugar dos Estados Unidos, protegido pelos U.S. Marshals, os delegados de elite da polícia judiciária americana, como testemunha de um caso contra a polícia da cidade da Filadélfia, capital do Estado da Pensilvânia.
Santos foi preso por 46 horas e espancado numa delegacia local, em fevereiro, sem ter cometido nenhum crime. Os policiais queriam obrigá-lo a não testemunhar contra o detetive Ryan Shiver que, embriagado, roubou o carro de Santos e matou duas pessoas num acidente, em janeiro.
Os Marshals, celebrizados no filme "O Fugitivo", entraram no caso em março, depois que Santos recorreu à Justiça federal. Segundo seus advogados, o brasileiro não corre mais perigo, mas reclama de ter que viver escondido. Ele tem 27 anos e é natural de Goiás.
Os policiais que prenderam Santos queriam que ele retirasse uma queixa de roubo de seu carro, um Pontiac 1997. Tentaram forçá-lo a assinar uma declaração de que emprestara o veículo ao policial. O objetivo era reduzir um dos agravantes legais (o roubo) num caso de acidente com vítimas, para impedir que Shiver pegue prisão perpétua, pena da Pensilvânia para roubo seguido por morte.
Como Santos recusou-se a assiná-la, os policiais o denunciaram ao Serviço de Imigração como ilegal, esperando obter sua deportação. O brasileiro resistiu, recorrendo à Justiça. Os policiais tentaram suborná-lo com uma oferta de US$ 50 mil, sem sucesso. Para livrar-se do assédio, Santos processou a cidade num tribunal federal, por violação de direitos civis - no sistema americano a polícia é responsabilidade do município.
O juiz Ronald Buclewater ainda não quebrou o sigilo do processo, mas aceitou a denúncia e marcou julgamento para dia 28 de maio. Os marshals (delegados), responsáveis por apresentar todos os envolvidos num processo perante as cortes federais, assumiram a custódia do brasileiro. Ele não poderá ser deportado enquanto durar o processo.
Santos, que não tem antecedentes criminais, entrou na história de gaiato. Ele estava jantando no restaurante Nicks, na avenida Northeast, na noite do domingo 31 de janeiro, dia da final do campeonato americano de futebol.
Um grupo de quatro homens acompanhava o jogo, fazendo festa e bebendo, numa mesa próxima. Um deles era o detetive Shiver, de 24 anos, naquele momento fora de serviço. Por volta das 23h, Shiver e seus amigos deixaram o bar, embriagados. O detetive roubou o Pontiac ano 1997 de Santos, que estava no estacionamento, fugindo com seus amigos.
Algumas ruas adiante, ele perdeu o controle do carro e bateu num poste, matando dois deles.
Enquanto isso, Santos deu queixa do roubo do carro no 15º Distrito, próximo do local, sem saber quem eram os ladrões do veículo. Na manhã seguinte, o carro dele foi encontrado. Shiver era da mesma delegacia onde o brasileiro prestara queixa. Quando Santos voltou à delegacia para saber o resultado da investigação
foi preso e espancado.
Depois que o brasileiro denunciou as pressões que sofrera, uma investigação federal confirmou a tentativa de encobrimento por parte da polícia local. O incidente com Shiver teve grande repercussão na Filadélfia, mas as pressões contra o brasileiro eram desconhecidas, até sua divulgação pela Corte. Três unidades da polícia local investigam o caso. Procuradas hoje (14) pela Agência Estado, nenhuma quis dar informações, alegando que o processo ainda está em andamento.


