Marilyn Monroe: um mito que os argentinos comparam com Evita
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quarta-feira, 21 de julho de 1999
Por Gisela Salomón, da Associated Press (assinatura obrigatória) 
Buenos Aires (AE-AP) - Loira, jovem e sempre sensual, Marilyn Monroe cativou semana passada centenas de argentinos e demonstrou que está mais viva do que nunca na imaginação e no sentimento de todos. Após 37 anos de sua morte, a estrela de Hollywood é um personagem mítico no país do tango, assim como Evita, Perón e "Che" Guevara. Sua esbelta figura e sua vida sofrida e cheia de intrigas fascinam os argentinos, que se juntaram para ver 20 objetos pessoais da diva que a casa de leilões Christies exibiu em Buenos Aires. Foi uma pequena mostra dos 1.000 pertences de Marilyn que serão leiloados em outubro em Nova York.
"Ela é um mito e eu a amo. É a mulher mais linda do mundo...me inspira um sentimento muito forte", disse Lorena Ferrand, de 22 anos. Aníbal Ford, reconhecido escritor e professor universitário, explicou que há certos personagens que se transformam em mitos a partir de suas ações na política, religião ou ajuda social. E outros o fazem porque representam características fortes de situações vitais, de dor, sofrimento, alegria ou beleza. "Por isso há mitos tão diferentes", assinalou Ford. O acadêmico indicou que tanto Evita como "Che" Guevara são considerados mitos pelo que realizaram. Mas explicou: "Não se pode negar que a sociedade também os transformou em mitos, os endeusou sem conhecê-los, os transformou em símbolos quase abstratos".
Como esposa do presidente Juan D. Perón, Eva Duarte, mais conhecida como "Evita", transcendeu o anonimato e chegou a converter-se em lenda argentina. Desde 1946 desempenhou um papel muito ativo no governo, declarando-se a favor dos pobres e gerando oposição no setor aristocrático. Morreu doente aos 33 anos, em 1952. Guevara, por sua vez, teve um desempenho destacado na luta de guerrilhas iniciada por Fidel Castro contra o ditador cubano Fulgencio Batista e foi nomeado ministro da Indústria de Cuba quando Castro chegou ao poder. Morreu aos 39 anos na Bolívia, onde havia tentado liderar uma revolução camponesa antes de ser capturado e fuzilado em 1967. "É o mercado que cria estes mitos...Hoje Evita não tem nada de mito político. É um mito cultural", assegurou Beatriz Sarlo, professora especialista em sociologia da cultura.
E é por esse valor "simbólico" que têm os objetos de Marilyn Monroe que a Christies espera arrecadar mais de quatro milhões de dólares no leilão, que incluirá desde seus livros até o vestido verde de 6.000 lantejoulas que usou em maio de 1962, quando cantou "Feliz Aniversário" para o presidente John F. Kennedy. O vestido foi criado pelo estilista Jean Louis e está avaliado em um milhão de dólares. Para Marcelo Escudero, um artista que pinta imagens de Monroe para vendê-las, Monroe é mais do que a loira sexy que apareceu em "Os homens preferem as loiras". É sua inspiração e forma de vida. "Me fascina o que brota de dentro. Eu a pinto e a vendo como pão quente", confessou o desenhista de 29 anos antes de entrar na exposição. Não foi só o atraente corpo desta mulher que viveu 36 anos que a manteve viva no coração das pessoas. Também foram seus fracassos sentimentais e sua morte confusa.
Elena Giardino, uma empresária de 52 anos que confessou que aos 20 se pintava como Marilyn e tentava parecer com ela, disse que é um mito "porque muitos imaginam que foi a mulher mais feliz do mundo e foi a mais desgraçada desde que nasceu".
Mas nem todos os admiradores destes personagens legendários estão dispostos a comprar seus objetos. Nélida Di Francesco, de 62 anos que disse "adorar" Marilyn, não desejaria ter nada da diva em sua casa. "Seus pertences teriam que ser patrimônio de todos...estar em um museu onde alguém cuide deles", afirmou. Outro presente na exposição, Osvaldo Urbán, disse que pagaria "qualquer coisa" pelo anel de platina e 35 diamantes que o jogador de beisebol Joe DiMaggio deu a Marilyn em seu casamento em janeiro de 1954. Ele lamenta não poder oferecer os entre 30 mil e 50 mil dólares que custa, segundo os leiloeiros. Ao invés disso ele tem livros, broches e chaveiros com a figura da atriz. "É que eu gosto de tê-la por perto", explicou o bailarino de tango. "Os mitos provocam um sentimento, dão coragem e despertam interesse por saber mais sobre eles".


