Campinas, SP, 23 (AE) -A professora de Filosofia Marilena Chauí, da Universidade de São Paulo, afirmou hoje (23) que as universidades públicas brasileiras estão mudando para pior por causa do "modelo neoliberal" adotado pelo governo Fernando Henrique Cardoso. Em palestra para 500 pessoas, no seminário O Sentido da Universidade, promovido pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Marilena criticou o modelo econômico que estaria transformando as instituições públicas de ensino superior em meras organizações de perfil empresarial.
A professora também criticou as relações do governo com as universidades e a autonomia universitária."O atual modelo de autonomia universitária se reduz ao gerenciamento empresarial de receitas e despesas." Para a professora, "o governo mantém com as universidades públicas a mesma relação que mantém com as empresas que cuidam do lixo: hoje as universidades são administradas como se fossem montadoras de automóveis."
Para a filósofa, essa "mutação" pela qual as universidades públicas estão passando contraria os conceitos básicos sobre as instituições de ensino superior. "Desde o século 13 as universidades são instituições sociais e sua legitimidade sempre baseou-se na sua autonomia", disse. "Hoje, porém, no vocabulário do governo, o termo "social" foi substituído por "empresarial". De acordo com a professora, "ao não considerar a educação como prioridade, o governo passa a tratá-la como qualquer serviço público que pode ser privataizado".
BID - A professora afirmou que o atual modelo para avaliação das universidades foi imposto pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). "Medem a produtividade universitária pela quantidade , o tempo utilizado e o custo das pesquisas, mas não perguntam o que se produz, como e para quem"
disse. Segundo a filósofa, faltam, ainda, critérios para avaliar a qualidade dos docentes.
Isso impediria o desenvolvimento de novas pesquisas. "Se, por pesquisas, entendermos o trabalho de criação e reflexão, então é evidente que não há pesquisas", afirmou. "As universidades se transformaram em gestores de contratos e não de pesquisas", disse, acrescentando que nestas novas organizações, "não há mais tempo para a reflexão".
Os professores Sergio Ferreira e Ivan Valente, ambos da USP, também centralizaram suas críticas no atual modelo econômico. "Essa autonomia universitária é mentirosa", disse Ferreira, que dirigiu a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). O resultado desse cenário, segundo ele, é que "os professores fingem que ensinam, os alunos fingem que aprendem e o que interessa, no final, é o diploma".
Para Ferreira, ao adotar um modelo econômico que visa o "lucro máximo em tempo mínimo", o governo incentivou o surgimento de universidades particulares sem qualidade de ensino. Como exemplo, citou o caso das escolas de medicina, que se multiplicaram pelo País nos últimos anos. "A qualidade dos profissionais que saem dessas escolas é criminosa", afirmou.
Para Valente, o governo federal passou a considerar a universidade pública um luxo, perdulária e supérflua. "O governo socorre os bancos, financia fusões de megaempresas, mas corta verbas para bolsas de estudo", disse. "Está na hora de os estudantes e professores retomarem o papel histórico das universidades públicas", disse.

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