MARIA BONITA O centenário da rainha do Cangaço
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sábado, 16 de abril de 2011
Luciano Augusto <br> Reportagem Local 
Piranhas (AL) - Maria Gomes de Oliveira, uma baiana nascida no Dia Internacional da Mulher era pessoa destemida, que não titubeou em abandonar um casamento infeliz para, com apenas 18 anos, tornar-se Maria Bonita, a primeira mulher cangaceira do sertão nordestino. Nos registros fotográficos e nos poucos filmes da época, ela se mostra sempre séria, altiva. Fragilidade é palavra que parecia não conhecer, embora fosse vaidosa. Em vida era respeitada. Mas, pelo envolvimento com os cangaceiros, foi perseguida e morta aos 26 anos junto com o companheiro Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião. Por conta de sua audácia e da relação com o rei do Cangaço, ela tornou-se a rainha do Cangaço e tal como ele foi elevada à condição de mito que ainda hoje inspira outras mulheres Nordeste afora.
Quem não conhece o sertão só tem vaga noção de quão dura é a vida do sertanejo. A mata de caatinga com suas árvores baixas e os emaranhados de galhos finos e pontiagudos domina a paisagem. Quando chove, as folhas pequeninas renascem num verde vivo. Mas basta alguns dias de sol para o solo arenoso e cheio de pedras sorver todo o líquido e secar novamente as plantas.
As cactáceas - como o mandacaru, a palma e o xique xique - e seus espinhos afiados se multiplicam e tornam a exploração do ambiente ainda mais complicada. O calor sempre muito forte - regra durante quase todo o ano - acelera a evaporação e deixa desnudo o leito de pedras dos pequenos veios d'água. Casas de taipa, com a entrada virada sempre para o norte para evitar o sol, completam o cenário. Cães ladram magrinhos ante a aproximação de estranhos.
Mesmo assim, o sertanejo mantém-se forte e não se verga. Homens, mulheres e crianças trabalham duro, de domingo a domingo, sempre levando a esperança no embornal junto com a carne seca, o feijão e a farinha. E já era assim também no tempo de Maria Bonita.
Pesquisas históricas apontam que Maria Gomes de Oliveira, também chamada de Maria Déia, teria nascido em 8 de março de 1911, num sítio nas cercanias da atual cidade de Paulo Afonso, no sertão da Bahia. O pai era fazendeiro mas a família não estava livre das dificuldades comuns à todo sertanejo. Ainda adolescente casou-se com o sapateiro José de Neném, com quem nunca teria sido feliz. Com frequência, ela fugia para a casa do pai e ficava por lá até ser levada de volta pelo marido.
Numa dessas escapadas, em 1930, Maria teria conhecido Lampião, que já era um cangaceiro temido por quase todos e admirado por muitos por todo o sertão. De pronto, teria se afeiçoado por ele e, voluntariamente, decidido abandonar o marido e a família para se embrenhar na caatinga junto com o bando de cangaceiros. Ao lado de Lampião viveu por oito anos. Nos registros da época, ela aparece com armas em punho - embora quase nunca as mulheres do bando partiam para a luta -, vestida à moda do Cangaço e também em momentos de maior descontração, afagando cães que seguiam o grupo. Perseguida, assim como todos os demais cangaceiros, Maria Bonita acabou morta e decaptada junto com Lampião e mais nove membros do bando em julho de 1938.
O jornalista viajou à Alagoas, a convite da revista Turismo & Negócios.


