Marés entrega hoje carta de demissão
Valmir Denardin
De Curitiba
Após cinco meses de uma gestão tumultuada, o paranaense Carlos Frederico Marés de Souza Filho, 53 anos, pedirá demissão hoje do cargo de presidente da Fundação Nacional do Índio (Funai). O motivo alegado por ele foi a repressão, pela Polícia Militar baiana, a cerca de 2 mil índios que participavam de uma marcha de protesto, em Porto Seguro, anteontem, durante as solenidades oficiais de comemoração dos 500 Anos de Descobrimento do Brasil.
Foi uma reação absolutamente desnecessária e violenta, disse Marés ontem, em entrevista à Folha, por telefone. Essa política não é a minha. Sempre enfrentei a questão no diálogo. O presidente da Funai participava da marcha, cujo objetivo era entregar um documento com as reivindicações dos índios ao presidente Fernando Henrique Cardoso.
A polícia reagiu atirando bombas de gás lacrimogênio contra o grupo que, segundo Marés, marchava pacificamente. Ele afirmou que pelo menos um índio foi ferido no pé pela explosão de uma bomba. Ainda na Bahia, Marés solicitou à Procuradoria da República naquele Estado abertura de inquérito para apurar o incidente.
Ontem, Marés negou que sua demissão tenha como causa supostas divergências com o ministro da Justiça, José Gregori seu superior, ou suas críticas recentes à condução do programa das comemorações dos 500 Anos pelo também paranaense Rafael Greca, ministro de Esporte e Turismo. Em janeiro, Marés criou constrangimento a FHC, ao demitir Orlando Villas-Bôas, um dos indigenistas mais respeitados do mundo, do cargo de assessor da Funai.
Marés admitiu, no entanto, que sua situação no governo não era boa. Afirmou que, nesta semana, entregaria o cargo a Gregori, caso não conseguisse discutir com ele novas demarcações de áreas e o Estatuto dos Povos Indígenas, já enviado ao Congresso. Essas políticas foram elaboradas durante a gestão de José Carlos Dias, antecessor de Gregori na Justiça e responsável pela nomeação do paranaense.
Amigo da primeira-dama Ruth Cardoso, Marés pertence ao grupo político do senador Roberto Requião (PMDB). Doutor em Direito, foi procurador-geral do Estado no governo de Requião (91-94). Ontem, ele disse que voltará ao Paraná para retomar as aulas na Pontifícia Universidade Católica (PUC), em Curitiba, e o cargo de procurador, ao qual chegou por meio de concurso. Leia os principais trechos da entrevista:
Folha Qual o motivo de sua saída da Funai?
Carlos Marés Foi a violência policial, absolutamente desnecessária, contra o movimento indígena. É a primeira vez em 500 anos que eles se organizam e a polícia reprime.
Folha O senhor já tinha problemas com os ministros Gregori e Greca...
Marés Não. Eu não havia tido ainda nenhum encontro com o Gregori. Minhas propostas haviam sido apresentadas ao presidente e ao ministro José Carlos Dias. Em relação ao Greca, nunca critiquei a festa (dos 500 Anos), mas a segurança da festa. Minha reação foi contra quem planejou a segurança.
Folha Mas já se cogitava que o senhor deixaria o cargo...
Marés Se não houvesse uma discussão com ele (Gregori) quanto à questão indígena, entregaria o cargo. O fato de anteontem apressou a decisão. Essa política de violência com a questão indígena não é a minha política.
Folha Sua saída não vai emperrar o avanço das propostas que o senhor elaborou?
Marés Espero que não. Nesses cinco meses, criamos bases sólidas e acredito que serei sucedido por alguém com seriedade e dignidade para cumprir o que foi proposto.Parananense que ocupa a presidência do órgão há 5 meses já sofria processo de desgaste; motivo alegado foi repressão a índios na festa dos 500 Anos
Arquivo FolhaDIVERGÊNCIASFrancisco Marés: Essa política (da repressão) não é minha. Sempre enfrentei a questão no diálogo





