Agência Estado
De Brasília
O presidente da Fundação Nacional do Índio (Funai) Carlos Frederico Marés deixou o cargo, oficialmente ontem, afirmando que o ministro da Justiça, José Gregori, adotou postura ‘‘antiindigenista’’, ‘‘omissa’’ e ‘‘de direita’’ em relação às questões indígenas. Ele havia anunciado sua decisão de deixar o governo no sábado, antes de voltar à capital federal, vindo de Santa Cruz de Cabrália, na Bahia. Marés disse que vinha alertando o presidente Fernando Henrique Cardoso sobre o perigo de violência contra os índios durante as comemorações dos 500 anos desde dezembro. E reclamou do fato de ter sido colocado ‘‘à margem’’ das discussões pelo gabinete de Segurança Institucional da Presidência, chefiado pelo general Alberto Cardoso.
O secretário-executivo do Ministério da Justiça, Antônio Anastasia, assume a presidência da Funai interinamente. A saída de Marés foi mais um momento de constrangimento durante sua passagem pelo governo. Ele pediu audiência ao ministro da Justiça ontem pela manhã para entregar sua carta de demissão, mas acabou deixando o documento com a chefe de gabinete da pasta, Ana Samico. A carta foi entregue às 11 horas. Gregori recusou-se a recebê-lo e limitou-se a, uma hora e meia após Marés ter deixado sua ante-sala, distribuir uma nota à imprensa anunciando a demissão do então presidente da Funai. Segundo o documento, as declarações de Marés à imprensa durante o final de semana tornavam desnecessária uma carta de demissão, já que não haveria como mantê-lo no cargo.
No sábado, o ex-presidente da Funai já criticara o governo pela repressão violenta à marcha organizada por lideranças indígenas em Santa Cruz de Cabrália, que pretendiam chegar a Porto Seguro e entregar um documento ao presidente Fernando Henrique. A nota diz, ainda, que o Ministério da Justiça não quer polemizar e que eventuais críticas a atuação do governo deveriam ter sido feitas no curso da gestão, internamente. Gregori recusou-se a dar entrevistas.
O ex-presidente da Funai, entretanto, acredita que tenha saído do governo devido à postura que tomou durante as comemorações dos 500 anos do Descobrimento. Na carta de demissão que entregou ontem, ele afirma que a ‘‘omissão’’ do Ministério da Justiça e o ‘‘isolamento’’ a que foi colocado nas festividades o levaram à certeza de que pediria demissão.
Marés escreveu ao ministro Gregori que ‘‘a violência estava anunciada quando da derrubada do monumento indígena’’, em terra pataxó, no início do mês. O ex-presidente defendia mudança de rumo na política de segurança, com mais diálogo com os movimentos sociais e os índios. Ele disse, no entanto, que viu que ‘‘nada disso’’ tinha acontecido depois que tentou por mais de 20 vezes se comunicar com autoridades do governo federal que estavam cuidando da segurança, na manhã do dia 22, quando houve repressão à marcha dos índios.
Marés disse que todo o esquema de segurança da festa dos 500 anos foi ‘‘repressivo’’ e a violência ‘‘gratuita’’. Ontem, ele recebeu apoio de caciques e representantes de movimentos indígenas.Presidente demissionário da Funai afirmou que Gregori adotou postura ‘‘antiindigenista’’, ‘‘omissa’’ e ‘‘de direita’’
Agência EstadoAPOIOCarlos Marés, que criticou a violência contra os índios, cumprimenta o cacique Celestino, da tribo xavante

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