Marés deixa a Funai criticando Gregori e FHC
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domingo, 23 de abril de 2000
Por Hugo Marques 
Brasília, 24 (AE) - O presidente da Fundação Nacional do Índio (Funai) Carlos Frederico Marés deixou o cargo, oficialmente hoje, afirmando que o ministro da Justiça, José Gregori, adotou postura "antiindigenista", "omissa" e "de direita" em relação às questões índígenas. Ele havia anunciado sua decisão de deixar o governo no sábado, antes de voltar à capital federal, vindo de Santa Cruz Cabrália, na Bahia. Marés disse que vinha alertando o presidente Fernando Henrique Cardoso sobre o perigo de violência contra os índios durante as comemorações dos 500 anos desde dezembro. E reclamou do fato de ter sido colocado "à margem" das discussões pelo gabinete de Segurança Institucional da Presidência, chefiado pelo general Alberto Cardoso.
O secretário-executivo do Ministério da Justiça, Antônio Anastasia, assume a presidência da Funai interinamente. A saída de Marés foi mais um momento de constrangimento durante sua passagem pelo governo. Ele pediu audiência ao ministro da Justiça hoje pela manhã para entregar sua carta de demissão, mas acabou deixando o documento com a chefe de gabinete da pasta, Ana Samico. A carta foi entregue às 11 horas. Gregori recusou-se a recebê-lo e limitou-se a, uma hora e meia após Marés ter deixado sua ante-sala, distribuir uma nota à imprensa anunciando a demissão do então presidente da Funai. Segundo o documento, as declarações de Marés à imprensa durante o final de semana tornavam desnecessária uma carta de demissão, já que não haveria como mantê-lo no cargo.
No sábado, o ex-presidente da Funai já criticara o governo pela repressão violenta à marcha organizada por lideranças indígenas em Santa Cruz Cabrália, que pretendiam chegar a Porto Seguro e entregar um documento ao presidente Fernando Henrique. A nota diz, ainda, que o Ministério da Justiça não quer polemizar e que eventuais críticas a atuação do governo deveriam ter sido feitas no curso da gestão, internamente. Gregori recusou-se a dar entrevistas e preferiu não comentar as críticas de Marés. Por intermédio de sua assessoria de Imprensa, contudo, fez questão de frisar que já havia exonerado seu subordinado quando recebeu a carta de demissão. Constrangimento - Nos últimos meses, Marés vinha fazendo críticas dentro do governo, que não foram bem recebidas por alguns setores. O ex-presidente da Funai fez restrições à mineração em áreas indígenas e falou, durante reuniões com os técnicos da Presidência, que a atividade econômica não seria absorvida pela cultura de algumas tribos. Marés também defendeu a homologação integral da terra indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima, medida que sofre resistência de grupos de grandes fazendeiros e de todos os políticos do Estado.
O ex-presidente da Funai, entretanto, acredita que tenha saído do governo devido à postura que tomou durante as comemorações dos 500 anos do Descobrimento. Na carta de demissão que entregou hoje, ele afirma que a "omissão" do Ministério da Justiça e o "isolamento" a que foi colocado nas festividades o levaram à certeza de que pediria demissão. Marés revelou que só não saiu antes para evitar que a situação de hostitilidade dos movimentos sociais ficasse ainda pior, já que sempre teve o apoio dos índios.
Violência - Marés escreveu ao ministro Gregori que "a violência estava anunciada quando da derrubada do monumento indígena", em terra pataxó, no início do mês. O ex-presidente da Funai defendia mudança de rumo na política de segurança, com mais diálogo com os movimentos sociais e os índios. Ele disse, no entanto, que viu que "nada disso" tinha acontecido depois que tentou por mais de 20 vezes se comunicar com autoridades do governo federal que estavam cuidando da segurança, na manhã do dia 22, quando houve repressão à marcha dos índios. "Não posso admitir a repressão policial como instrumento de regulação social", assinalou em sua carta.
O ex-presidente da Funai fez questão de ressaltar que não trabalharia com "um homem igual" a José Gregori. "Não tenho condições de trabalhar com ministros que não assumem brigas", disse. Ele acredita que José Carlos Dias tenha sido demitido do governo ao tentar enfrentar a "direita", que seria representada pela área militar. E lamentou que Gregori não o tenha recebido. "Eu queria a oportunidade de relatar as grandes violações que ocorreram contra os direitos humanos", disse. O ministro da Justiça acumula também o cargo de Secretário Nacional dos Direitos Humanos.
Repressão - Marés disse que todo o esquema de segurança da festa dos 500 anos foi "repressivo" e a violência "gratuita". Afirmou que vinha tentando negociar uma ação mais pacífica com o coronel Wellington Muller, da Polícia Militar da Bahia, mas que não conseguiu respaldo na área federal. "Pensei em pedir demissão mas achei que a situação ficaria mais grave". Marés afirmou que não esperava ser atacado por bombas e balas de borracha, no momento em que acompanhava a marcha dos índios.
O ex-presidente da Funai disse acreditar que o presidente Fernando Henrique Cardoso esteja "equivocado" ao qualificar de fascistas os militantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST). Ele acha que isto é "má influência da direita". Marés afirmou que o governo deveria ouvir mais os movimentos sociais. Hoje, ele recebeu apoio de caciques e representantes de movimentos indígenas.


