'Marcha silenciosa' pede desarmamento
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 09 de julho de 2002
Luciana Garbin<br> Agência Estado 
Cada calçado exposto durante a 'marcha silenciosa' trazia o nome e a idade da vítima
São Paulo - A bancária Adeliana Freitas teve ontem um dia diferente. Em companhia da sogra, Leonilda Galdino da Silva, e do filho William Jean, de 2 anos, ela saiu cedo de casa para participar no Anhangabaú, no centro de São Paulo, de um evento contra o desarmamento organizado pelo Instituto Sou da Paz.
Em abril do ano passado, seu marido, Williano, de 22 anos, foi uma das vítimas da violência. ''Desde que ele morreu, tenho insônia e sofro de doença do pânico, mas quis vir aqui porque acho que as pessoas não podem se omitir ou intimidar'', disse Adeliana, enquanto colocava um par de sapatos que pertenceu ao marido com quase mil outros que formaram ontem a ''marcha silenciosa''.
Eram tênis, chinelos, sandálias e calçados de festa, que despertaram emoção e curiosidade em quem passava pelo local. Alguns começavam perguntando se estavam doando sapatos, mas, depois, se sensibilizavam com os nomes e idades escritos nas etiquetas de cada par.
Segundo o diretor do Sou da Paz, Denis Mizne, os sapatos alertam para uma estatística dramática: a cada 13 minutos uma pessoa é assassinada no Brasil - 90% com armas de fogo. ''É preciso quebrar o ciclo da violência. Nos últimos dez anos, dobraram as vagas em prisões e nunca se prendeu e matou tanto. E o que se conseguiu?'', perguntava. ''Não basta polícia, se não estiver perto da comunidade. Não basta prisão, se não recupera. Não basta repressão sem prevenção.''
Por volta das 13 horas, o minuto de silêncio pelas vítimas de armas de fogo emocionou as pessoas. Depois, foi celebrado um ato ecumênico. O evento, que reuniu cerca de 4 mil pessoas, ainda contou com hip-hop, malabares, street dance, grafite e terminou com o Hino Nacional.
Famílias também ocuparam o vão livre do MASP na Avenida Paulista, com o ato Periferia Troca Armas por Investimentos Sociais. Com caixão, cruzes, flores e camisetas manchadas, elas fizeram o enterro simbólico de jovens vítimas de armas.


