Agência Estado
De Brasília
A marcha do Grito Latinoamericano dos Excluídos, organizada ontem pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e Movimento dos Sem-Terra (MST), foi uma manifestação marcada por palavras de ordem contra o Fundo Monetário Internacional (FMI), em defesa do não pagamento da dívida externa brasileira e dos países subdesenvolvidos, além de gritos ‘‘Fora FHC’’. Por causa do feriado, os manifestantes discursaram para embaixadas – Indonésia, Colômbia e Estados Unidos – de portas fechadas. O ato foi pacífico, exceto em frente à embaixada da Indonésia, quando um manifestante furou o bloqueio da Polícia Militar para pôr uma bandeira do MST no portão.
Houve empurra-empurra e a polícia usou spray de gás lacrimogênio para afastar os manifestantes do cordão de isolamento ao redor da embaixada. Uma das organizadoras do ato, identificada apenas como ‘‘companheira Isabel’’, incitou a confusão. ‘‘Vamos dar as costas para esses soldados que são podridão, sujeira e bandidos defensores de ladrões’’, afirmou no alto-falante.
Um grupo de punks que aderiu ao ato quebrou a placa de identificação da embaixada dos Estados Unidos, pichou a frase ‘‘assassinos malditos’’ e queimou uma bandeira daquele país em cima da placa. Eles também picharam o chão da entrada da embaixada da Indonésia e da norte-americana. Os integrantes do MST fizeram uma performance onde fincaram cruzes no chão, pintaram uma bandeira dos Estados Unidos de vermelho e pisaram sobre ela, simbolicamente mostrando o domínio dos americanos sobre os países subdesenvolvidos.
Os líderes do MST José Rainha e João Pedro Stédile participaram do ato, mas não discursaram. Stédile fincou uma das cruzes ao lado da placa da embaixada depredada pelos punks. Para um dos líderes do movimento, Vilson Santin, outros movimentos de protesto devem se seguir ao de ontem, em várias partes do País. ‘‘Só movimentos como esse são capazes de reverter esses processos de domínio dos países desenvolvidos’’, disse.
O ato, de acordo com o Padre Luiz Bassegio, representante da CNBB, não teve conotação político-partidária. ‘‘O objetivo é defender a soberania e criticar o pagamento da dívida externa e o acordo com o FMI’’, disse. ‘‘Até o Papa fala claramente do perdão da dívida externa.’’
Segundo os organizadores, duas mil pessoas participaram do ato, que partiu da praça onde há dois anos foi queimado vivo o índio Galdino até as embaixadas, num trajeto de cerca de 5 quilômetros. A polícia militar calculou em até 600 pessoas. Foram enviados cerca de 200 policiais para fazer a segurança nas duas primeiras embaixadas visitadas pela marcha. Para a embaixada norte-americana, a segurança foi reforçada com 300 homens.
Esse foi o primeiro grito dos excluídos envolvendo países da América Latina e do Caribe: as passeatas foram realizadas simultaneamente em 14 países. Na manifestação brasileira, estiveram presentes representantes de todos esses países.
Segundo os organizadores, as visitas às embaixadas foram para protestar contra a violência no Timor Leste (praticada na Indonésia), a solidariedade à Colômbia (em repúdio à possibilidade de intervenção norte-americana naquele país) e na dos Estados Unidos (em protesto pelo domínio econômico daquele país nos países subdesenvolvidos das Américas).

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