Porto Alegre, 23 (AE) - Com cartazes e faixas trazendo as palavras de ordem "Fora daqui/FHC e o FMI", milhares de pessoas participaram hoje da quarta edição da Marcha do Sem, em Porto Alegre. Cerca de quatro mil pessoas - segundo os fiscais de trânsito - caminharam desde o Planetário da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), no bairro Santana, até o Palácio Piratini, no centro da cidade. Professores, estudantes, colonos sem terra, funcionários públicos, representantes de associações de bairro e sindicalistas integraram a marcha.
Para o presidente da CUT/RS, Francisco Vicente, a mobilização foi "positiva", embora aguardasse maior participação. "Muita gente ligada a sindicatos que viria do interior cancelou a viagem por falta de dinheiro", disse. Às 13h, os manifestantes seguiram o roteiro das avenidas Ipiranga, Érico Veríssimo e Borges de Medeiros, dirigindo-se depois à Praça da Matriz e ao Palácio Piratini, onde houve um ato público
às 15h.
Em seu discurso, o deputado federal Pompeo de Mattos (PDT) chamou o presidente Fernando Henrique Cardoso de "office-boy do ACM". Referindo-se ao presidente disse que ele "treme de medo diante do barrigudo da Bahia". Outros oradores acusaram FHC de ser "traidor", "entreguista" e "vende pátria". Algumas faixas propunham "Dinheiro só para quem precisa", abordando a questão da guerra fiscal. Outra, com o logotipo da Ford, perguntava "E os nossos R$ 40 milhões?", lembrando o empréstimo que o Estado fez para a Ford do Brasil.
O governador Olívio Dutra (PT) subiu no palanque e recebeu uma pauta de reivindicações da CUT. "Sabemos que o governador pegou um Estado quebrado mas com um aperto aqui, um aperto ali...", sugeriu Vicente. Entre outros itens, o documento solicita a aplicação de 10% da receita líquida do Estado na área de saúde; o questionamento dos alimentos transgênicos, política salarial para os professores e políticas emergenciais para enfrentar o desemprego.
Quando o grupo passou em frente ao prédio do jornal Zero Hora, do grupo Rede Brasil Sul (RBS), os manifestantes colaram adesivos com os dizeres "RBS/ZH Mentem" no edifício e penduraram uma bandeira da CUT no mastro da fachada. "Foi uma coisa espontânea", disse Vicente. "Foi impossível segurar as pessoas, que resolveram desabafar contra quem tem uma posição de direita e trata o movimento sindical como uma coisa clandestina", argumentou.
"Eles taparam a fachada com decalcos, pisaram os jardins e causaram prejuízos à estética do prédio", descreveu o vice-presidente da RBS, Afonso Motta. Mesmo admitindo que "o vandalismo não chegou à depredação de proporções", Motta informou que a empresa registraria ocorrência policial.
Entre outras entidades, participaram da passeata a União Nacional dos Estudantes (UNE), Movimento de Luta pela Moradia, Centro dos Professores/RS (Cpers-Sindicato), Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), Pastorais Sociais da Igreja Católica, Movimento das Mulheres Trabalhadoras Rurais, União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES), Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), mais delegados do Orçamento Participativo (OP), partidos de oposição ao governo FHC, sindicatos e associações de bairro.
Os manifestantes aproveitaram a ocasião para expressar seu apoio ao Orçamento Participativo (OP), uma maneira de administrar em que a população reúne-se em assembléia para eleger suas prioridades. Vicente notou que o OP está sendo ameaçado por decisões judiciais que impedem que o governo estadual possa aplicar recursos na organização do processo.

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