Marcha do Dia da Mulher reúne vozes em todo mundo
Na avenida Paulista, a marcha pede o fim da violência; em países da Europa e até no Irã tamém houve manifestações
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sábado, 08 de março de 2025
Na avenida Paulista, a marcha pede o fim da violência; em países da Europa e até no Irã tamém houve manifestações
Patrícia Pasquini/ Folhapress e Francepresse 

SÃO PAULO - Movimentos sociais ligados à esquerda realizaram, na tarde deste sábado (8), um ato pelo Dia Internacional da Mulher na avenida Paulista, em São Paulo. A concentração em frente ao Masp (Museu de Arte de São Paulo) teve início às 14 horas, com representantes de entidades, partidos e sociedade.
O mote deste ano é "Pela vida das Mulheres! Por democracia! Contra a fome, pela legalização do aborto, salário digno, fim da escala 6x1 e o fim da violência policial! Contra o fascismo e o racismo!".
A avenida foi ocupada por manifestantes, que seguiram em caminhada por uma faixa em direção à praça Oswaldo Cruz, no Paraíso, zona sul da cidade.
As reivindicações das mulheres envolvem combate ao racismo, ampliação da licença-maternidade para seis meses, igualdade de salário e legalização do aborto e a prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro, entre outras.
"É para a gente pensar as questões de violência, o que temos enfrentado em relação à violência sexual e o direito ao aborto legal, mas trazendo as pautas da mulher trabalhadora. Acumulamos mais trabalho do que os homens se pensar no trabalho doméstico e na jornada de trabalho. Por isso, apoiamos o fim da escala 6x1, para também termos tempo de lazer", afirma Luka Franca, da organização do ato pelo MNU (Movimento Negro Unificado).
Para Luka, as demandas mais urgentes são a legalização do aborto no Brasil para a garantia dos serviços e o fim da escala 6x1, ou seja, a adoção de uma jornada de 36 horas semanais, dividida em quatro dias. A proposta é tema de uma PEC apresentada pela deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) e ganhou impulso nas redes sociais.
CASO VITÓRIA
Manifestantes também lembram o caso da adolescente Vitória Regina de Sousa , 17, cujo corpo foi encontrado em Cajamar (Grande São Paulo) na última quarta-feira (5) após uma semana de buscas. Ela desapareceu após sair do trabalho, em um shopping da cidade, por volta das 23h do dia 26 de fevereiro. A polícia investiga o caso, e ninguém foi preso até o momento.
Com a maquete de um cemitério na cabeça e a foto da jovem Vitória, Sheila Cristiane Santos Nobre, 49, protesta contra a violência contra a mulher e o aumento do número de feminicídios no estado de São Paulo. "O caso da Vitória me arrepia. Eu tenho filha. A gente se comove como mãe e como mulher. Não queria estar no lugar da mãe dela agora", diz a moradora do Parque Residencial Cocaia, na região do Grajaú, zona sul.
Lilian Borges da Silva, 42, do Butantã, zona oeste, levou para a marcha seu protesto contra os redpills. Segundo ela, são pessoas que ganham dinheiro na Internet para falar mal das mulheres e passar mensagens misóginas.
"Eles têm 7.812 canais de misoginia, todos monetizados, quatro bilhões de visualizações. Os discursos de ódio também se devem a esses canais. Enquanto eles faturam, as mulheres perdem a vida, e isso não é aceitável."
MARCHAS PELO MUNDO
Centenas de milhares de pessoas foram às ruas neste sábado (8) em todo o mundo por ocasião do Dia Internacional dos Direitos das Mulheres, reivindicando uma "igualdade real" e rejeitando o crescimento de discursos "masculinistas".
FRANÇA
Dezenas de milhares de pessoas manifestaram-se em várias cidades do país, que consagrou o direito ao aborto na sua Constituição em 2024.
Em Paris, onde 120.000 pessoas saíram às ruas segundo os organizadores - e 47.000 segundo as autoridades -, Sabine, de 49 anos, disse que "Trump e os masculinistas fazem muito barulho, mas não são tão fortes como nós".
ESPANHA
Em Madri, a capital deste país europeu pioneiro na luta contra a violência de gênero, mais de 25.000 pessoas manifestaram-se sob a chuva para exigir "igualdade real, não de brincadeira", como indicou Rosa Muñoz Alcalá, de 67 anos.
Na marcha, Marc Farré, um professor de 53 anos, descreveu um momento de "ofensiva fascista, ultrarreacionária, ultraconservadora, uma ofensiva para precisamente travar todas as conquistas de direitos".
IRÃ
A dissidente iraniana e Nobel da Paz Narges Mohammadi, de 52 anos, afirmou neste sábado que as mulheres derrubarão o sistema islâmico estabelecido no Irã após a revolução de 1979.
"As mulheres levantaram-se contra a República Islâmica de tal forma que o regime já não tem poder para reprimi-las", disse numa mensagem de vídeo em persa.
UCRÂNIA
Em Kharkiv, no nordeste da Ucrânia, as mulheres prestaram homenagem às militares ucranianas mortas nos combates contra as tropas russas.
"Só temos um dia para falar disso alto e claro, mas temos que lembrar disso todos os dias, porque as mulheres representam metade da nossa sociedade e precisamos falar sobre o que elas fazem, quem são, como protegem e o que fazem para tornar o nosso país livre e independente", declarou uma das organizadoras, Iryna Lysykova, de 54 anos.
TURQUIA
Em Istambul, a principal cidade deste país muçulmano conservador, cerca de 3.000 pessoas saíram às ruas perto da praça Taksim para uma marcha feminista noturna, apesar da proibição de manifestar-se nesta parte da cidade.
"Hoje estamos aqui para tornar visível a nossa luta, para defender as nossas vidas contra a violência machista", afirmou Cigdem Ozdemir, psicóloga de 27 anos.
ALEMANHA
Mais de 10.000 pessoas manifestaram-se em Berlim pelo Dia Internacional das Mulheres. Entre elas estava a política Karoline Preisler.
"As mulheres devem ter os mesmos direitos e as mesmas responsabilidades" que os homens, disse. "Até que o consigamos, haverá boas razões para sair às ruas", acrescentou.
VENEZUELA
Cerca de 150 manifestantes, a maioria com o rosto oculto por medo de represálias das forças de segurança, se reuniram em Caracas.
Durante o protesto, pediram a libertação de 121 "presas políticas" e denunciaram as "condições desumanas" do seu local de detenção.
O número de mulheres detidas por motivos políticos multiplicou-se nas operações que se seguiram às manifestações contra a contestada reeleição do presidente Nicolás Maduro em julho.
MÉXICO
Milhares de manifestantes tomaram o Paseo de la Reforma, uma das principais avenidas do México, país onde, em média, 10 mulheres são assassinadas por dia, segundo números da ONU.
Este é o primeiro 8 de março com Claudia Sheinbaum como presidente, a primeira mulher a governar o México, que ao assumir o cargo proclamou: "Não chego sozinha, chegamos todas".
Muitas manifestantes disseram estar dispostas a dar o benefício da dúvida a Sheinbaum para avançar nos direitos das mulheres.
"É mulher, é mãe e agora é nossa presidente. Espero e confio que possa haver avanços muito maiores para nós como mulheres", afirmou Norma Julissa García, advogada de 52 anos.
"Quero ver como vai trabalhar nesses seis anos. Diz 'chegamos todas', mas não é verdade, estão aí todas as mulheres desaparecidas", comentou Ana Laura Ocelotl, funcionária de um call center de 29 anos.
ARGENTINA
As manifestações se multiplicaram pela Argentina. Na capital, Buenos Aires, milhares de pessoas marcharam do Congresso à Praça de Maio em frente à Casa Rosada. Um dos alvos dos manifestantes foi o presidente do país, o ultraliberal Javier Milei.
"Estamos diante de um governo muito cruel, muito impiedoso que não para de nos tirar direitos, não só das mulheres, mas de todo o povo, e acreditamos que neste 8 de março temos que estar na rua mais firmes do que nunca por todas essas reivindicações", disse Mónica Santino, integrante da organização de futebol feminista La Nuestra.
Mais cedo, o governo de Milei publicou um vídeo nas redes sociais no qual se vangloriava de ter fechado o Ministério da Mulher em 2024 e eliminado todos os departamentos de gênero das repartições estatais porque eram desperdiçados "milhares e milhares de milhões de pesos".


