Marcha de ruralistas pede lei no campo
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 04 de agosto de 1997
Agência Folha Campo Grande 
Produtores rurais do Mato Grosso do Sul realizaram ontem carreata pelas ruas de Campo Grande pedindo fim de saques e invasões de propriedades rurais e urbanas. Os fazendeiros foram recebidos pelo governador Wilson Barbosa Martins (PMDB) e pelo ministro da Justiça, Íris Rezende, a quem entregaram uma pauta de reivindicações e um pedido de cumprimento da Constituição.
O ministro, que foi a Campo Grande para a posse do novo superintendente da Polícia Federal no Estado, disse que vai levar o assunto ao presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB).
A carreata demorou cerca de duas horas, passou pelo centro da cidade e acabou na Governadoria, sede do governo local, com a execução do Hino Nacional. Os organizadores do protesto estimaram em 4.000 o número de participantes.
A 5ª Companhia da Polícia Militar (polícia de trânsito) avaliou que o protesto reuniu 500 pessoas e 60 veículos, entre camionetes, caminhões e carros de passeio. A Agência Folha contou 273 pessoas a cavalo, a maioria funcionários de fazendas. Peões tocaram 20 cavalos soltos e sem sela.
O protesto foi organizado pelo Movimento Nacional de Produtores (MNP), criado em abril último e apoiado por quatro entidades representativas de fazendeiros no País: Confederação Nacional de Agricultura (CNA), Sociedade Rural Brasileira, Organização das Associações Cooperativas Brasileiras e Associação Brasileira dos Criadores de Zebu.
A carreata teve o nome de Pela lei, ordem e paz no campo e na cidade. O Movimento Nacional de Produtores pretende organizar outros protestos no País. Os produtores levaram para a carreata faixas pedindo o fim da baderna e paz para o campo produzir.
Caminhões transportaram implementos agrícolas sucateados, gado, cana-de-açúcar e cereais. Uma comissão dos produtores foi recebida à tarde pelo ministro da Justiça, Íris Rezende. Em documento, eles pediram punição criminal para os cabeças das arruaças, proibição de acampamentos irregulares, maior respeito com as lideranças rurais patronais que não estão sendo ouvidas, fixação de critérios que definam a propriedade produtiva, entre outros itens.
O presidente da Confederação Nacional da Agricultura, Antônio Ernesto de Salvo, 64, disse aos jornalistas, após a audiência, que o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) mostra uma face de desrespeito à lei, face enrustida do socialismo. Segundo Salvo, os produtores rurais estão inseguros com a desordem pública plantada no Brasil pelo MST.
Márcio Bissoli, 26, da coordenação estadual do Movimento Sem Terra, disse que os fazendeiros são os que motivam a violência no campo, ao contratar e armar jagunços para combater ocupações pacíficas de terras ociosas.
Rodovias - O ministro da Justiça, Iris Rezende, disse ontem em Campo Grande que o governo federal tem plano para retirar as famílias de trabalhadores rurais sem terra que estão acampadas à beira de rodovias no País.
Rezende disse que o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) poderá conseguir áreas provisórias, até que os acampados possam ser incluídos no programa de reforma agrária do governo. Em todo o Mato Grosso do Sul, segundo o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), há 33 acampamentos com 5.700 famílias, parte ligada ao MST e parte à Federação dos Trabalhadores da Agricultura (Fetagri). O superintendente da Polícia Rodoviária Federal (PRF) no Mato Grosso do Sul, Celso Preza, 46, informou que seis acampamentos estão à beira de rodovias de domínio federal no Estado, aumentando riscos de atropelamentos e acidentes de trânsito.
O maior acampamento, com 2.163 famílias à beira da rodovia BR-163, entre Itaquiraí e Naviraí, sul do Estado, é também o que mais preocupa a PRF.
Segundo Antônio Pinheiro, um dos líderes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, existem 5.700 famílias acampadas em 30 localidades diferentes do MS, vivendo em completa miséria e sem as mínimas condições de conseguir trabalho devido a inexistência de mercado que empregue mão-de-obra rural. É um exército de desesperados, famintos, portanto dispostos a qualquer coisa para não morrer de fome, afirmou.
Depois disse que da meta do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária, que prevê o assentamento de 2.200 famílias no Estado até o final do ano, só foram assentadas cerca de 340 famílias.


