Brasília, 25 (AE) - Com a expectativa da chegada de 1.700 ônibus e da participação de 70 mil pessoas e 5.500 policiais, a Marcha dos 100 mil, marcada amanhã (26) em Brasília, promete ser o maior teste até agora para a oposição e o governo Fernando Henrique Cardoso. Enquanto os oposicionistas jogam sua grande cartada, apoiados na baixa popularidade do presidente, o governo aposta na divisão do movimento e na impopularidade da tese de renúncia ou do impeachment. Isso ficou claro numa conversa hoje entre o ministro da Justiça, José Carlos Dias, e o presidente do PT, José Dirceu, no gabinete do ministério. "Será um teste para os dois lados", afirmou o ministro. "Mas a responsabilidade maior pelo controle da manifestação será da oposição."
Embora ninguém admita publicamente, há um grande receio do governo e da oposição por um quebra-quebra ou qualquer confusão de consequências imprevisíveis. Para tentar evitar esse clima, o Fórum de Luta, Trabalho, Terra e Cidadania, que organiza a Marcha junto com a frente dos partidos de oposição (PT, PDT, PSB
PCB e PC do B), fará barreiras na entrada da cidade e distribuirá panfletos para orientar os manifestantes. "Vai sair tudo na mais perfeita ordem", aposta o presidente da CUT-DF, José Zunga Alves de Lima.
A concentração está marcada para às 9 horas, em frente à Catedral, na Esplanada dos Ministérios. Dali, às 10 horas, os manifestantes seguem até em frente ao Congresso Nacional, onde um palanque foi armado para os discursos dos oposicionistas. O ponto alto da manfestação, porém, deverá acontecer às 11 horas, quando uma comissão de 60 pessoas entrará no Congresso para entregar dois abaixo-assinados ao presidente da Câmara, Michel Temer. Um deles pede a abertura de processo contra o presidente Fernando Henrique Cardoso pelas privatizações e outro uma CPI para investigar a privatização da Telebrás.
Durante o ato, alguns dos principais representantes dos partidos de oposição, como Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Leonel Brizola (PDT), Miguel Arraes (PSB) e João Amazonas (PC do B) deverão se revezar nos discursos. Durante essas manifestações
deverá ficar clara a divergência de opiniões sobre os rumos da esquerda.
Enquanto o PT e o PSB investem na pressão de uma CPI e no desgaste do governo, o PDT e os partidos comunistas pregam uma campanha pela renúncia do presidente.
Para o cientista político, Sérgio Abranches, o primeiro grupo só tem a perder com a Marcha. "Essa manifestação só vai explicitar as divergências da esquerda e mostrar que ela não tem um projeto para o País", avalia Abranches. Na sua opinião, os setores moderados, que queriam preencher o espaço de centro-esquerda, tornando-se uma opção para 2002, foram levados de roldão pelos mais radicais. "O Brizola, desde o golpe de 1964, não tem nada a perder", observou Abranches. "Mas o Lula terá um grande prejuízo com uma manifestação de inspiração golpista, porque pode perder a confiança da população."
Também preocupado com a Marcha, o presidente do Congresso, senador Antônio Carlos Magalhães, avisou hoje que não vai admitir qualquer invasão. ACM, porém, acredita que a manifestação será pacífica. "Do contrário, não será bom para ninguém, principalmente para as oposições", disse o senador.
Até as 18h30 de hoje, 32 ônibus já haviam chegado à capital federal. Pela expectativa dos organizadores, devem chegar 1.725 ônibus com uma média de 40 pessoas por veículo. No total seriam 69 mil pessoas, mais 22 mil que moram em Brasília, somando 91 mil pessoas.
No único incidente do dia, um agricultor queimou o seu trator na Esplanada dos Ministérios, em protesto contra a derrota no Congresso do projeto que perdoava parte das dívidas dos produtores rurais. Apesar do ato, os ruralistas acabaram abandonando a Esplanada e não devem engrossar amanhã (26) o coro dos manifestantes. Esse era um dos temores do governo, mas a estratégia de esvaziar o movimento dos agricultores acabou dando certo.
Alguns dos sindicalistas da CUT-SP, que estavam no Ministério do Desenvolvimento , Indústria e Comércio Exterior, denunciaram algumas ações da polícia de São Paulo. Segundo eles, os ônibus estavam sendo parados para que os policiais examinassem e tirassem cópias dos documentos dos passageiros. "O Covas está tentando atrasar a Marcha", acusou um dos sindicalistas.
Até as 18 horas, já haviam 20 ônibus estacionados na Esplanada. Cerca de 600 pessoas, participantes do Sindcep de Goiás, Tocantins, São Paulo e Minas, se concentraram em frente à catedral e desceram até o Congresso, junto com o carro de som, gritando palavras de ordem contra o governo. Alguns dirigentes do Sindcep criticaram a organização da Marcha porque queriam ter direito à palavra. Antônio Agostinho dos Santos, 48 anos, de Santa Catarina, carregava uma cruz com os dizeres Apocalipse Já. Contou que teve uma revelação na Suíça, há 20 anos, Deus disse que ele deveria voltar para salvar o Brasil. "Fiz o que ele fez".
Depois da chegada à catedral, os manifestantes caminharão até o palanque instalado em frente ao Congresso. Ali, os políticos e líderes de oposição vão se revezar nos discursos. Às 11 horas, uma comissão de 60 pessoas entrará no Congresso para a entrega dos abaixo-assinados.

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