Marcha consegue adesão popular
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quinta-feira, 01 de maio de 1997
Agência Estado 
BRASÍLIA - Depois de 60 dias de marcha e 14 dias acampados na Esplanada dos Ministérios, os sem-terra deixaram ontem Brasília. Cansados, mas felizes diante do apoio popular ao movimento, os trabalhadores rurais dedicaram-se à arrumação das trouxas e a visitas de última hora aos pontos turísticos da cidade. Antes de embarcarem em 35 ônibus, com destino a 15 estados, participaram ainda das comemorações do Dia do Trabalhador.
O sacrifício valeu, resumiu o mímico Antônio Carlos Oliveira, 36 anos, acampado em Itapetininga (SP), que aderiu ao MST por razões ideológicas. Com o inseparável violão, Oliveira comentava, satisfeito: Gastei dois pares de chinelo na caminhada, e, em troca, ganhei experiência e força para lutar, cobrar a terra. Sob uma das 29 lonas pretas que abrigaram os sem-terra durante os 14 dias, a jovem catarinense Wania Maciel não aguentava a expectativa de voltar para Passo Maria (SC), para rever o irmão. Orgulho-me de ter ajudado a mostrar nossa luta, mas há dois meses não vejo minha família e nunca fiquei tão longe.
Ontem, o serviço de atendimento odontológico, montado em um ônibus pelo governo do Distrito Federal, havia encerrado suas atividades. Foram mais de 120 obturações e quase 200 dentes extraídos por dois profissionais. Vinte sem-terra deixaram a cidade enxergando melhor. Reprovados nos exames oftalmológicos, receberam doações de óculos e lentes.
A farmácia do MST também estava sendo encaixotada. O que mais saiu aqui foram os remédios para gripe e para tratar os pés cansados da marcha, explicou Edmilson Garcia, ou o alemão da saúde, como é mais conhecido o farmacêutico que há um ano e meio trata das mazelas dos sem-terra. Dos 1.300 trabalhadores rurais que estiveram em Brasília, apenas um permaneceu, internado por problemas renais.
Ainda em plena atividade, as 13 cozinheiras preparavam o último almoço dos integrantes da marcha em Brasília: arroz, feijão, macarrão e frango. A galinha que sobrasse ainda seria levada pelos viajantes nos ônibus, devidamente acompanhada pela farofinha. Nos 14 dias de acampamento, foram consumidas duas toneladas de arroz, mais de uma de frango, 810 quilos de feijão, 14 mil pães e 2,6 mil litros de leite. Não é fácil alimentar este povo, mas a gente trabalha com prazer, disse, satisfeita, a merendeira Vicentinha Rodrigues, de Mato Grosso.


