Paris, 10 (AE) - Será que um dia as jovens dos bairros difíceis, dos subúrbios de emigrantes, irão trajar modelos Yves Saint-Laurent e Chanel, enquanto seus companheiros envergarão smokings assinados por Jean-Paul Gauthier? Não chegamos ainda a este ponto, mas estamos caminhando para isso.
Por enquanto, todo o comércio de roupas e confecções está em mutação porque os jovens dos subúrbios só querem usar "marcas": camisas, bonés, sobretudos ou calçados Lacoste, Adidas, Reebok, Tommy Hilfiger, Ralph Lauren, etc.
Algumas destas grandes marcas, embora não estejam muito orgulhosas desta fulgurante "democratização", seguem o movimento, acompanham a onda. Isso se evidencia nas cores: marcas outrora reputadas por seu bom gosto, sua percepção dos matizes. da tonalidade, partem para o "brilhante", o barroco...
É com espanto que vemos "Lacoste" amarelo-berrante ou vermelho-cereja... "Mon Dieu!, cara amiga, que horror!" Movimentos rápidos, caprichosos, provisórios e, portanto, difíceis de serem seguidos. A verdade é que, uma vez mais, o motor se situa bem longe, nos Estados Unidos, onde a cultura "negra" e a cultura suburbana há muito tempo são muito mais consolidadas e poderosas do que na Europa.
As marcas "chiques" são difundidas a um ritmo desvairado pelos cantores, os canais de TV a cabo, os clipes.
Basta que uma marca seja escolhida pelos jovens , para que sua ascensão se torne automática. Na verdade, um jovem ou uma jovem que não usasse a marca do momento, enfrentaria o desprezo ou até mesmo a rejeição de seu grupo e ficaria isolado.
As moças são muito atentas: se um rapaz atraente tenta paquerar uma jovem, ela examina num relance as roupas que ele usa, se estão de acordo com a moda e sobretudo se trazem a "griffe". Se o rapaz não se veste dessa maneira, é eliminado, pois isso significa que ele não tem condições ou, pior ainda, que não é muito esperto.
A esperteza na realidade desempenha um papel importante. Para buscar uma marca, pode-se até furtar de carros, de pessoas distraídas ou mesmo ir aos bairros nobres e "despojar" um filhinho de papai sob ameaça...
Mas essa mania pode também causar ruína. Alguns filhinhos de papai, com 2.000 francos de mesada por mês, gastarão 1.500 para adquirir peças chiques e de "marca". Alguns pais vivem um verdadeiro martírio: uma empregada doméstica, um operário não especializado consagram três quartas partes de seu salário para vestir filhos ou filhas.
Mas também existem as "cópias". Todas as semanas, o trem que vai para a Bélgica está repleto de jovens de subúrbios, porque a Bélgica é uma encruzilhada da "contra-moda". Em alguns casos, basta comprar uma falsa etiqueta e mandar costurá-la sobre a roupa. Diante desta grande confusão, as marcas reagem de maneiras diferentes.
Algumas guardam silêncio incômodo. É o caso da Lacoste, cujo célebre "crocodilo" foi durante muito tempo a etiqueta da boa sociedade burguesa, cômoda e discreta, a sociedade do tênis e do golfe. Hoje, porém, surge um mercado inédito para a Lacoste: os bairros e subúrbios.
Com certeza isso aumenta os benefícios da marca, mas há também um receio crescente: é o medo de que os burgueses, as pessoas "de bem", que fazem questão de não serem confundidas com "essa gentalha" (como dizem com desdém os moradores dos bairros elegantes), se afastem de uma marca ostentada nos bustos de árabes, de negros ou de franceses pobres.
Outras marcas se sentem mais à vontade e "se agacham" para entrar nessa brecha. A prova: a publicidade se utiliza de caminhos até agora desconhecidos. As marcas compreenderam que o aparecimento de uma "sigla" sobre o calção de um "rapper" constitui uma propaganda muito mais eficaz do que dez páginas nas revistas ou jornais. Portanto, da mesma forma que Christian Dior oferece roupas de graça a Liz Taylor ou a Isabella Rossellini, hoje elas vestem dos pés à cabeça os cantores dos subúrbios.
Algumas olham mais longe: constataram que nos subúrbios, os jovens formam grupos e que cada grupo tem um ou dois líderes de opinião.
Contratam-se especialistas para buscar nos subúrbios esses líderes de opinião - rapazes ou moças - e oferecem a eles um uniforme completo, contando logo depois com o "telefone árabe" para que os presentes contaminem todo um grupo.

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