Marca de Niemeyer na paisagem de Londrina


Lúcio Flávio Moura   Reportagem Local
Lúcio Flávio Moura Reportagem Local

Londrina - O gênio da arquitetura, o homem que enriquecia o horizonte moldando curvas deslumbrantes no concreto, também deixou sua marca na paisagem pé-vermelha. O projeto da Rodoviária de Londrina é dele. Ou melhor: são deles os três projetos para o terminal, duas vezes redimensionado por falta de verbas para construí-lo.
A inusitada história dos desenhos refeitos gerou muitas especulações, nunca confirmadas, de que o autor rejeitava a criação. Mas para projetistas de prestígio na cidade não há dúvida de que a Rodoviária tal qual vemos hoje é uma obra de Niemeyer tanto quanto o Copam, a Pampulha, o Congresso ou o palácio presidencial.
E para estes londrinenses que gostam e ganham a vida desenhando a notícia a seguir provocou uma comoção maior ainda: Oscar Niemeyer morreu às 21h55 de quarta-feira, no Rio de Janeiro. Ele estava internado no Hospital Samaritano, no bairro de Botafogo, desde 2 de novembro. Inicialmente vítima de desidratação, o arquiteto também teve problemas nos rins e era submetido a hemodiálise, além de fisioterapia respiratória. Na manhã de quarta, Niemeyer sofreu uma parada cardíaca e sua respiração passou a ser mantida por aparelhos. O arquiteto completaria 105 anos no próximo dia 15.
O engenheiro e doutor em Arquitetura, Junker Grassiotto, de 67 anos, secretário de Obras do prefeito Wilson Moreira, que administrou Londrina de 1983 a 1988, esteve por duas vezes no famoso escritório do arquiteto, instalado na Avenida Atlântica, no Rio de Janeiro.
As duas vezes em que esteve em Copacabana para conversar com o mestre da prancheta, Junker tinha missões espinhosas mas que serviram para ele admirar ainda mais o ídolo.
Ele teve que informar pessoalmente a Niemeyer de que o projeto original, criado anos antes, não poderia ser concebido por falta de recursos. E fez isso duas vezes, seguido de um pedido para refazer o projeto com soluções pensadas por outros projetistas. ''Ele era uma pessoa boníssima. Acabou me surpreendendo, aceitando de pronto o pedido de uma nova versão, dizendo entender que, se não havia recursos, não havia outra solução''. O último pedido da administração Moreira a Niemeyer foi a construção da caixa d'água da estação. ''Quando fiz o pedido, ele fez quase instantaneamente. E hoje podemos apreciar. Tem uma linda forma''.
Junker lembra que apenas o detalhamento, a comunicação visual, o paisagismo e a concepção da área comercial da Rodoviária não foram feitos pelo arquiteto carioca. A tarefa ficou a cargo do escritório do falecido arquiteto Júlio Ribeiro. ''Em uma grande obra, isso é absolutamente comum'', explicou.
Outro que sentiu especialmente a morte de Niemeyer foi o professor do curso de Arquitetura da Universidade Estadual de Londrina, Jorge Marão Carnielo Miguel, de 59 anos. É dele uma coleção de cerca de 60 desenhos do arquiteto, feitos durante uma aula improvisada para alunos do curso de especialização da universidade.
A aula foi dada no escritório de Copacabana em 2005, quando Marão visitou o mestre para que ele fizesse uma dedicatória do livro A Casa, em que o professor da UEL compara as arquiteturas das casas projetadas por dois gigantes das artes, Vilanova Artigas e Rino Levi, discrepantes ideologicamente. Para honra de Marão, Niemeyer havia escrito o prefácio da obra.
Os estudantes tiveram então uma ''aula inesquecível'', lembra Marão. O maior arquiteto do mundo na frente deles, então quase um centenário, que usava o cavalete, a caneta hidrográfica e o papel sulfurizê para lembrar suas obras mais famosas, tentar esclarecer as ideias escondidas por trás dos traços.
Niemeyer ia desenhando, explicando, rasgando cada página que rabiscava. Marão pensou rápido e foi guardando papel por papel, antes que verdadeiras relíquias fossem para a lata de lixo. Guardou tudo. E mostra com orgulho todos os desenhos. O que ele mais gosta, a igrejada Pampulha, mandou até emoldurar. Ele também tem um carinho especial pela frase que ele escreveu em uma das páginas do cavalete e que marcou muito os estudantes e ele próprio. Ali, estaria a essência do pensamento do gênio: ''A vida é mais importante que a arquitetura''.
O corpo de Oscar Niemeyer será sepultado hoje às 17h30 no Cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro.

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