Nova York (AE-NEWSWEEK) - Vinton Cerf, um dos pais da Internet
tem e-mail desde a década de 1970. Isso era na época em que apenas os verdadeiros tecnófilos e estudiosos tinham alguma idéia sobre como funcionar no mundo virtual.
Hoje, como vice-presidente sênior da MCI WorldCom, Cerf dirige uma equipe de arquitetos e engenheiros que imaginam como fazer a rede funcionar melhor e mais rápido para seus usuários, que incluem executivos, membros de ONGs e adolescentes com telefones celulares.
O próprio Cerf tornou-se uma espécie de herói para os chamados Netizens - cidadãos da Internet - em todo o mundo. Recentemente, ele recebeu um e-mail com uma foto anexa, mostrando dois ugandenses sorrindo e apontando para um painel solar que haviam colocado sobre o telhado de seu minúsculo barraco para garantir uma ligação por satélite para acessar a Internet. Esses moradores de um povoado na Uganda certamente são uma anomalia.
Os africanos representam uma minúscula porção dos que estão ligados a um fio em todo o mundo. Existem 2 bilhões de pessoas no planeta que nunca fizeram uma chamada telefônica, muito menos discaram para a America OnLine (AOL).
Apesar disso , um vilarejo africano com uma conexão com a rede mundial de computadores representa a maior esperança para os ciberentusiastas - a esperança de que o novo mundo que está sendo agora criado on-line será ligado, não pela geografia, mas pela tecnologia. Este sonho já se tornou realidade em algumas partes do mundo desenvolvido, onde telecomunicação, os negócios sem fronteiras e a capacidade de interconexão durante 24 horas são coisas naturais para uma classe executiva móvel. O desafio para a próxima década é garantir que o resto do planeta não fique para trás.
A boa nova é que a Internet naturalmente elimina muitas das barreiras que podem impedir o progresso no mundo real - ou seja, raça, classe e sexo. No espaço cibernético, a gente não pode ver a idade ou a cor das pessoas - um fato que, segundo as mulheres e as minorias raciais, pode dar lugar a redes mais abrangentes, em vez de redes com "homens-brancos-de-terno".
"Muitas mulheres ainda acham que o teto de vidro é um acessório permanente", diz Cherie Piebes, executiva de marketing global da IBM para mulheres empresárias. "Elas não aguentam mais e começam a fazer negócios on-line".
A divisão de Piebes na IBM fez parcerias com 23 assosciações que incluem centenas de milhares de mulheres que estão começando "negócios eletrônicos" (e-businesses) em todo o mundo. Um ambiente não-corporativo neutro em relação ao sexo é uma grande atração, especialmente em culturas onde as mulheres recebem educação mas não têm oportunidades.
No Japão, 85% das mulheres têm graus universitários, mas muitas acabam servindo chá a homens vestidos com ternos cinza. Por isso, não causa surpresa que a Computer Economics, uma instituição de pesquisa da Califórnia, esteja prevendo que o Japão se tornará um viveiro de empresárias da Internet. Estados árabes ricos, como a União dos Emirados árabes, produzirão também "ciber-empresárias". E as oportunidades proporcionadas pela rede se estendem para além do mundo dos negócios. Os muçulmanos estão falando a respeito do potencial do "cyberhijad" (ou "véu cibernético") que permite às mulheres - proibidas de trabalhar juntamente com os homens ou de fazer compras sem uma dama de companhia - ver o mundo surfando pela Internet.
Na Arábia Saudita, 26 provedores de serviços da Internet têm portais para mulheres surfistas. Na Índia, uma viúva muçulmana, tradicionalmente confinada à sua casa durante 40 dias de luto, manteve-se em contato com sua família e amigos via e-mail.
Michael Erbschloe, da Computer Economics, resume assim este fenômeno: "Onde há dinheiro e educação, juntamente com barreiras à plena participação na sociedade, encontra-se a Internet".
Isso certamente é verdade para os idosos. Embora controlem 77% da riqueza dos Estados Unidos, os cidadãos mais velhos lutam contra os preconceitos de idade, as limitações físicas e o desligamento da família e amigos. É por isso que alguns serviços
como o SeniorNet, com sede nos Estados Unidos, estão florescendo. Uma vez conectados à rede, os adultos mais velhos tendem a usar a Internet tanto ou mais do que os mais jovens. Fazem a maioria de suas compras on-line e frequentemente acham empregos on-line.
Betty Reid Soskin, uma antiga usuária da rede mundial de computadores, de 78 anos, descobriu que suas conversas políticas on-line ajudaram a dar-lhe confiança para expressar suas opiniões fora da Net. Ela agora trabalha como assessora de uma deputada estadual da Califórnia.
Para outros, o simples fato de poder interagir com o mundo desde o interior de suas casas já é o bastante. A diretora executiva da SeniorNet, Ann Wrixton, se lembra do tempo em que duas crianças de 12 anos, esperando receber ajuda para suas tarefas escolares de casa, fizeram uma pergunta a respeito da Segunda Guerra Mundial na SeniorNet. Receberam mais de 10.000 respostas. Essas mensagens poderiam ter vindo de um escritório em Wall Street ou de uma cadeira de balanço na Main Street, um fato que incentivou os negócios cibernéticos em todo o mundo.
Ter um escritório no Vale do Silício é uma bela coisa, mas, em última análise, não importa onde você faz negócios na Internet.
Esther Dyson, perita em Internet, que tem investimentos em várias companhias de tecnologia européias, vendeu recentemente sua participação acionária numa empresa baseada em Praga, que produz instrumentos de desenvolvimento Java para a Sun Microsystems.
"A eles não interessa onde estava localizado o negócio", disse Dyson. "Só interessava que esse negócio pudesse produzir trabalho de qualidade e fazer a entrega em tempo, via Net".
Cerf lembra um recente e-mail que recebeu , anunciando a produção de páginas na Web por US$ 125 por unidade. O produtor morava em Bangalore, India.
Para jovens profisionais ambiciosos da ásia, Oriente Médio ou América Latina, ser um empresário da Net significa que você não precisa necessariamente deixar sua casa para buscar melhores oportunidades no Ocidente. Por outro lado, os que viajam frequentemente descobrem que as barreiras para entrar no grande setor de alta tecnologia são menores do que em alguns campos mais estabelecidos.
O Vale do Silício foi durante muito tempo um lugar para que pessoas vindas de fora o transformassem num grande polo tecnológico (Andrew Grove, da Intel, Jerry Yang, da Yahoo, são duas dessas pessoas).
Mais recentemente, imigrantes de Índia, Paquistão, Líbano e áfrica do Sul romperam o círculo fechado da comunidade empresarial européia. Muitas das novas fortunas da Net no Reino Unido estão sendo ganhas por pessoas que não nasceram na Inglaterra.
Tudo isso é possível por causa da incrível demanda de trabalhadores especializados em tecnologia de informação. Em ambos os lados do Atlântico, as companhias estão procurando desesperadamente pessoas de talento que entendem a Internet, independente de sua nacionalidade.
Mas a rede não pode agir como a grande equalizadora a não ser que todos tenham acesso a ela. Norte-americanos com grau universitário provavelmente terão quase 16 vezes mais acesso à Internet no lar do que os que têm educação ginasial e colegial e uma família rica americana de origem asiática terá 34 vezes mais probabilidades de acesso à Internet do que uma família pobre afro-americana, de acordo com estudo feito em 1999 pelo Departamento de Comércio dos Estados Unidos.
A situação é ainda mais terrível nos países em desenvolvimento.
Embora os preços dos hardware de computador estejam caindo mensalmente, existem apenas 14 milhões de linhas telefônicas na áfrica - menos do que na cidade de Tóquio ou em Manhattan. Felizmente, satélites de órbita baixa poderão logo oferecer conexão mais barata do que as linhas LAN.
Enquanto isso, organizações como o Banco Mundial e o Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas estão correndo para ligar por cabos o mundo em desenvolvimento, muito embora de forma fragmentária.
Na Mongólia, um programa financiado pelas Nações Unidas estabeleceu centros no Deserto de Gobi, onde os moradores locais entram em contato com os computadores e aprendem computação. A Africa Connection, uma iniciativa lançada pela áfrica do Sul e Uganda e apoiada pelo Banco Mundial, é uma tentativa para aumetnar o acesso à Net para os africanos. O maior obstáculo: tornar a áfrica um lugar atraente para negócios das companhias de telecomunicações. Para isto, líderes locais estão elaborando um sistema de licenciamento-padrão para empresas de telecomunicação. Assim, se uma companhia ocidental de telecomunicações quiser estabelecer um serviço por satélite para Togo, poderia estender a cobertura a Benin com um mínimo de burocracia.
Está sendo também linvestido bastante dinheiro no acesso à Net para estudantes. Tanto o Programa de Desenvolvimento da ONU quanto o Banco Mundial estão ligando escolas secundárias e universidades em países em desenvolvimento.
A idéia é esta: como a tecnologia de informação é uma nova indústria, os estudantes deveriam poder treinar-se on-line e ajustar o passo com seus colegas do Ocidente. "Se vocês quiserem que a construção de estradas no mundo em desenvolvimento esteja a par da construção no Ocidente, estão com um atraso de 20 anos", disse John Roome, do Banco Mundial, diretor de serviços de conhecimentos na áfrica. "Mas vocês podem esperar treinar um trabalhador de informação que seja tão capaz quando seu colega nos Estados Unidos ou na Europa".
À medida que o mundo vai entrando cada vez mais on-line, a demografia da Net irá mudando. A Computer Economics estima que até 2002 a maioria dos usuários da Net não falará inglês como sua primeira língua. O conteúdo local continuará a crescer em popularidade. E a Net se tornará um lugar não apenas para troca de informações, mas para preservar a cultura local.
Os nômades da Mauritânia, os Inuits do Canadá e os camponeses do interior de Uganda poderão conversar não apenas com o mundo desenvolvido, mas também entre si. Não existem provas para sugerir que o aumento da capacidade de conexão resolverá todos os problemas de comunicação no mundo. Mas pelo menos poderemos fazer intercâmbio de cartões postais desde qualquer canto do mundo...

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