Se depender do entusiasmo das meninas que frequentam o curso de mecânica oferecido pelo Caic (Centro de Atendimento Integrado à Criança) Dolly Jess Torresin, na zona sul de Londrina, os homens terão, em breve, que enfrentar uma competição dura. O que não é novo, mas também não é cena comum. ‘‘Já na segunda guerra mundial, enquanto os homens estavam nas frentes de batalha, as mulheres iam para as oficinas construir o material bélico’’, diz o instrutor do curso Antonio Venâncio Cavalcante Filho.
O curso é aberto a todos os interessados a partir dos 12 anos e que estejam frequentando curso regular. Não há limite de idade. Embora exista há quase quatro anos, a presença de mulheres passou a ser mais constante este ano, com 17 inscritas. Hoje, cinco continuam frequentando as aulas. Gisele de Brito Corade, 12 anos, Jaqueline Augusto Paixão da Silva, 15 anos, e Vera Lúcia Borges, 36, estão entre elas. Todas são de famílias com renda mensal baixa e pensam na profissão como oportunidade de trabalho e uma vida melhor.
Gisele quer ser bióloga, mas sonha em abrir uma oficina mecânica e, quem sabe com a profissão, custear os estudos. Jaqueline quer ser consultora de mecânica numa grande empresa. Vera trabalha há 11 anos na frente de trabaho da prefeitura como zeladora e sonha ter uma profissão com a qual possa oferecer mais conforto aos quatro filhos, ter férias, INSS e todos os direitos trabalhistas.
‘‘Eu sempre gostei de mecânica e também já pensei em ser eletricista. Quando vi que podia fazer o curso aqui no Caic fiquei muito feliz’’, relata Vera Lúcia. Ela parou de estudar há muitos anos e hoje faz o supletivo de 5ª a 8ª série. ‘‘Estou com muita vontade de aprender. Se conseguir terminar o curso, quero deixar de ser zeladora e arrumar um emprego em que possa ganhar mais.’’
Gisele, apesar de ter apenas 12 anos, já pensa na profissão de mecânica como ‘trampolim’ para conseguir frequentar uma faculdade. ‘‘Quero ser bióloga, mesmo assim, antes, vou abrir uma oficina’’, planeja.
A competição com os homens, que dominam a área, não assusta Jaqueline da Silva. ‘‘Mecânica é uma boa profissão para nós. Há muitas empresas que preferem trabalhar com mulheres na área de consultoria ou injeção eletrônica’’, diz.
‘‘A mulher sempre competiu lado a lado com os homens. A profissão de mecânica é um campo aberto para elas’’, considera o instrutor Venâncio. Segundo ele, hoje não tem diferença de trabalho numa oficina mecânica entre os sexos. ‘‘Os trabalhos mais pesados são feitos por guindastes ou elevadores. As mulheres não levam desvantagem.’’

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