Por Melinda Liu, com Leslie Pappas, em Pequim Por que Pequim está com tando medo de um melancólico guru espiritual? A repressão contra Falun Gong vai além da superstição.
Washington, 03 (AE-NEWSWEEK) - A julgar pela campanha contra, talvez você pense que Li Hongzhi é um assassino que elimina suas vítimas a machadadas ou ao menos uma figura incendiária. Repetidamente, a televisão controlada pelo governo de Pequim vem exibindo uma fita Orwelliana apontando os perigos de se juntar a seu movimento espiritual, denominado Falun Gong. Seguidores de Li fizeram denúncias graves contra o movimento e o chamaram de charlatão. Membros do partido comunista reuniram-se em sessões de estudo político para exorcizar suas idéias. Autoridades governamentais destruíram 2 milhões dos seus textos e fitas. Máquinas de terraplenagem esmagaram videoteipes contendo seus exercícios de respiração, baseados em um regime antigo denominado qigong. A agência de notícias oficial Xinhua chamou a campanha contra o Falun Gong de uma "séria luta política". As autoridades emitiram um mandado de prisão para sua captura e enviaram sua descrição - "congrega a seita de um olho único, pesado sotaque do noroeste" - a autoridades que controlam a fronteira chinesa, na eventualidade de que ele tente voltar de sua casa em Nova York. Os chineses não viam um tipo de campanha como essa desde o sangrento massacre do movimento dos estudantes, em 1989.
De que Pequim tem tanto medo? Mestre Li, como é conhecido por seus devotados seguidores, pode ser um excêntrico mas não é um contra- revolucionário. O guru espiritual de aparência melancólica e de fala mansa, cujos princípios são extraídos de um mistura de budismo, taoísmo e crenças místicas, prega "verdade, benevolência e clemência".
Também acredita, entre outras coisas, que há alienígenas habitando a Terra e que pode dar a seus seguidores um "olho celestial" com poder sobrenaturais. Mas, para os líderes de Pequim, a súbita ascensão de Falun Gong é um lembrete enervante sobre os pontos fracos do Partido Comunista. No deserto ideológico da sociedade chinesa, faminta por dinheiro, o partido não serve mais como um leme moral. Isso talvez não fosse tão assustador para os líderes se eles não estivessem lutando corpo a corpo com explosivas reformas econômicas.
Os altos níveis de desemprego e um sistema de saúde esfacelado estão fomentando o descontentamento - e minando a credibilidade do partido.
A repressão violenta "simplesmente mostra como o governo está frágil e atemorizado", diz o sinólogo da Universidade de Boston, Merle Goldman."Este não é um regime forte".
Não que o governo esteja prestes a cair. Mas, para líderes paranóicos em relação a possíveis inquietações sociais, o número total de seguidores de Li - 70 milhões na China, mais do que o próprio Partido Comunista - e sua comprovada capacidade de organizar protestos em larga escala fizeram soar o alarme.
Segundo Pequim, o Falun Gong tinha 39 "estações mestres" e 1.900 "estações filiais" em toda a China. A blitz da mídia promoveu um retorno ao tempo das campanhas maoístas de controle da mente da década de 60. Em uma história de horror, um adolescente seguidor da Falun Gong matou os pais a facadas porque achava que eles eram demônios. Em uma outra história, um aposentado cortou fora os genitais porque acreditava que isso o impediria de atrair ondas eletromagnéticas de outros planetas. Um outro homem destripou a si mesmo porque estava tentando retirar "Círculo da Lei" cósmica que o mestre Li supostamente tinha plantado no seu abdômem.
Em uma autocrítica que lembra a Revolução Cultural, um líder local da Falun Gong arrependeu-se publicamente: "Estou aborrecido porque destrui muitas famílias felizes treinando-as no Falun Gong". O partido enviou centenas de seus próprios membros que tinham praticado o Falun Gong para seminários de reeducação. Para não ficar para trás, o Exército de Libertação do Povo contou que um "grande número" de soldados estava "estudando teorias, refutando falácias, distinguindo entre o certo e o errado e fomentando tendências saudáveis à luz das realidades". Pequim bloqueou o acesso aos sites do Falun Gong na Web.
O primeiro lampejo de medo tomou forma no partido em 25 de abril, quando mais de 10 mil praticantes do Falun Gong calmamente cercaram Zhongnanhai (o complexo de prédios governamentais) para reclamar de um artigo de revista que os criticou. O primeiro-ministro Zhu Rongji encontrou-se com representantes do Falun Gong no local e ficou abismado em ver entre eles colegas do alto escalão do partido, incluindo um funcionário do Ministério de Segurança do Estado. "O governo não se opõe ao qigong", disse a ele. "Mas vocês não podem vir aqui assim. Devem ir embora".
Após um dia inteiro de reunião, segundo uma fonte bem-informada, os manifestantes se dispersaram tão calmamente como tinham vindo. O presidente Jiang Zemin estava irado. E enviou uma carta à meia-noite para um membro chave do Politburo, afirmando: "Não acredito que o marxismo não possa triunfar sobre Falun Gong".
Os críticos de Zhu podem facilmente usar seu encontro com os assessores de Li contra ele. O Falun Gong pode ter-se tornado em combustível na disputa política que vêm fermentando nos últimos meses.
Em uma entrevista recente a Newsweek, Li ressaltou que Zhu não tinha se oposto publicamente ao seu movimento. Ele é o único dos líderes máximos que trocous chistes amigáveis com os representantes da agora ilegal organização. Politicamente, Zhu já está na defensiva: em maio, durante uma visita aos Estados Unidos, não conseguiu extrair de Bill Clinton um acordo sobre os termos para Pequim se juntar à Organização Mundial do Comércio. O bombardeio da Otan à embaixada chinesa em Belgrado foi um revés para Zhu, cujas reformas econômicas dependem de laços íntimos com o Ocidente. Na semana passada, em um outro mau sinal para o futuro político de Zhu, um de seus protegidos, Zhu Xiaohua, renunciou abruptamente a seu cargo como chefe de uma importante empresa chinesa.
Há boatos de que o executivo está sendo objeto de uma investigação sobre irregularidades financeiras. O sucessor de Zhu Xiaohua disse que a transferência foi "normal".
Os líderes devem reunir-se no início de agosto no resort à beira- mar de Beidaihe. A reforma das empresas de propriedade estatal e a entrada da China na OMC - ambas cruzadas de Zhu - inicialmente estavam no topo da pauta de discussões. Agora, a repressão ideológica é o assunto quente também. Como um líder que encara o Falun Gong de forma branda, Zhu está vulnerável. A repressão violenta não é apenas uma forma de desviar a atenção de importantes reformas econômicas mas também poderá afugentar os muitos necessitados investimentos estrangeiros.
"Obviamente todos esses acontecimentos constituem um golpe para Zhu", comentou um diplomata ocidental em Pequim.
Como estivesse disposto a colocar em destaque suas prioridades, Zhu tem viajado bastante para visitar vítimas das enchentes anuais deste ano. Algumas vítimas das inundações acreditavam que o Falun Gong poderia ajudá-las a sobreviver debaixo dágua. Na semana passada, Zhu elogiou os esforços de emergência por parte do Exército de Libertação do Povo. Na televisão, as vítimas se juntaram a seu coro. "Só depois que a água chegou aos nossos pescoços é que compreendemos que Li Hongzhi não ia nos resgatar", disse aos repórteres um agricultor chamado Li Guangyun, depois de ter resistido ao resgate durante dois dias, na esperança de que a Falun Gong o salvasse e a sua família.
"Agora sabemos que apenas os membros do ELP podem ser nossos salvadores".
Depois da repressão, será que os seguidores de Li sobreviverão na clandestinidade? Como não existe um tratado de extradição entre a China e os Estados Unidos, Li pode continuar a liderar seu movimento a partir de Nova York. Ao menos 70 líderes do movimento presos na primeira noite devem ser investigados e julgados. Outros poderão enfrentar sanções que variam desde a expulsão do partido à perda de empregos ou mesmo confinamento em um acampamento de reedução com trabalhos forçados. Muitos chineses estão resistindo tranquilamento aos aspectos mais extremistas da repressão violenta. "Vou manter os livros para estudá-los, encontrar seus erros e instruir minha família", diz um yuppie de Pequim cujas parentes são praticantes do Falun Gong.
Afora o domínio cósmico do Falun Gong, a liderança está preocupada com os sinais de resistência dentro das fileiras do partido. Conta- se que Jiang enfureceu-se ao saber que algumas autoridades locais estavam fazendo corpo mole em promover a repressão do grupo. Parece que o movimento já sabe operar na clandestinidade. "Por que eles alegam não ter organização quando está organizado exatamente como um partido político"? perguntou um membro do alto escalão. Isso é algo que os comunistas, que começaram na clandestinidade, conhecem muito bem.
"Eles viram o inimigo", diz um diplomata ocidental de Pequim, "e ele se parece com eles". Antes da repressão, Li estava preocupado apenas com seus poderes extraterrestres. Goste ou não, ele agora se tornou uma força política mais terrena, também.

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