Pequim, 30 (AE-AP) - O fundador da República Popular da China, Mao Tsé-tung, disse certa vez que "o poder nasce do fuzil".
Seu sucessor como líder supremo chinês, Deng Xiaoping, mais sutil e realista, afirmou em contraste: "Não importa se o gato seja branco ou preto, desde que ele cace ratos".
Esses dois homens tão distintos foram os titãs da China comunista, que amanhã celebra seus primeiros 50 anos de existência.
Mao, que morreu em 1976, foi o pai do novo Estado chinês. Deng
que faleceu em 1997, o transformou numa potência moderna.
Os velhos camaradas de armas se confrontaram quando Mao, ávido por realizar o comunismo em sua vida, engavetou seu compromisso de enriquecer a China por meio do capitalismo controlado e a democracia restringida. A disputa dividiu o Partido Comunista e afundou o país no caos.
Tive a oportunidade de conhecer aos dois, ao cobrir a China por 32 anos, de dentro e de fora, para a Associated Press.
Cada um foi alternadamente admirado e detestado em vida. A história dará a última palavra. E apesar de seus defeitos e excessos, provavelmente os colocará entre os grandes da história chinesa.
Com uma mescla de astúcia e força, Mao combateu os exércitos nacionalistas de Chiang Kai-shek durante 28 anos e venceu as forças muito superiores.
Em seu momento de maior debilidade, em meados dos anos 30, ele conduziu 250 mil seguidores numa retirada de 9.000 quilômetros realizada em um ano, a Longa Marcha, uma epopéia da resistência humana. Tinha 10 mil homens quando encontrou refúgio na província de Shaanxi, e acabou reconstruindo um exército de quase um milhão.
Em 1º de outubro de 1949, quando subiu na porta vermelha da Cidade Proibida de Pequim para proclamar a República Popular, era quase lógico que acreditasse que o poder nasce do sangue, da pólvora e da força bruta.
Passei sete meses com Mao nos porões da capital comunista de Yanan, próxima do deserto de Gobi, quando os Estados Unidos promoviam negociações para acabar com a guerra civil. Nesses dias críticos, nos víamos quase diariamente.
Aos 53 anos, ele havia travado inumeráveis combates e participado em intermináveis intrigas durante duas décadas de luta. Suas calças azuis remendadas e suas sapatilhas indicavam que ainda não havia triunfado.
Vivia humildemente, como todos em Yanan, uma cidade primitiva de 40 mil habitantes. Mas amava a ópera de Pequim, com seus imperadores e imperatrizes luxuosamente adornados, suas cortesãs e palhaços; o faziam recordar o passado glorioso da China.
Em nossa primeira conversa disse que agradecia os esforços do presidente Harry Truman para juntar comunistas e nacionalistas num governo de coalizão. Mas acrescentou que não podia confiar na palavra de seu velho adversário Chiang.
Frio e calculista, Mao possuía a tenacidade de um cão de caça e o sangue frio de um grande comandante sob fogo.
Na primavera de 1947, quando parti de Yanan, três exércitos nacionalistas batiam à porta. Perguntei a ele como reagiria diante da perda de sua capital e novos anos de luta na clandestinidade. Não perdeu a calma: "Venha me ver em Pequim dentro de dois anos", disse. Mas tardou menos.
Nesse momento, Mao era o único que podia tirar a China do século 15 e projetá-la para a era moderna. Mas ele era um sonhador romântico que concebia o país como o antigo Reino Central, poderoso e auto-suficiente, disposto a aceitar sofrimento, mas desdenhoso de ajuda e de vínculos estrangeiros. E carecia de conhecimentos econômicos e da habilidade administrativa necessária para conduzir o país do feudalismo ao marxismo.
Deng era o contrário: um realista com os pés no chão. Doeu a ele ver como Mao abandonava a fórmula comunista de criação de riqueza por meio de incentivos e maior abertura política. Como me disse certa vez, essas eram apenas muletas para usar no caminho do socialismo.
Mao era provinciano. Deng, cosmopolita. Ao completar 16 anos, Deng foi para a Europa, onde passou cinco anos. Mundano, conhecedor de economia, internacionalista, se atrevia a experimentar.
O conheci em 1979, quando assumiu o poder após a morte de Mao e iniciou as grandes reformas. Miúdo, delicado, de olhos brilhantes, era muito diferente de Mao.
Tinha senso de humor e saboreava uma conversa. Mao era desconfiado, vulnerável à adulação, romântico. Deng era modesto, confiado, tenaz.
Deng me disse que os líderes chineses deveriam escolher entre a política e o governo, e exercer o poder por períodos limitados.
O mercado livre, que ele introduziu, era uma ferramenta, disse. Nem socialista nem capitalista.
Poderia ter adulado Mao e seguir sua linha, mas acreditava que ela conduziria ao desastre, como ocorreu.
O defeito que quase significou seu fim foi o medo.
Vítima de três expurgos - dois deles na época de Mao -, Deng teve medo do caos que provocaram as manifestações pró-democracia em 1989 e ordenou que as tropas abrissem fogo na Praça da Paz Celestial.
O resultado foi uma mancha de sangue em seu currículo.
Mas antes de sua morte, ele se empenhou para salvar suas reformas e converter-se no grande modernizador da China no século 20.

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