São Paulo, 30 (AE) - A negociação comercial entre o Mercosul e a União Européia, compromisso reafirmado em reunião de cúpula no Rio, nesta semana, pode forçar o empresariado brasileiro a uma autocrítica. Até agora, a discussão focalizou principalmente o comércio de produtos agrícolas e agroindustriais, afetado pelo protecionismo europeu. Mas a questão é muito mais grave: dos dez principais produtos vendidos pelo Brasil à Europa, no ano passado, nove eram matérias-primas ou mercadorias industriais de baixo valor agregado, também chamadas commodities. Nessa lista, o primeiro produto de alta elaboração, o veículo automotor, aparece em sexto lugar, depois de soja em grão, minério de ferro
farelo de soja, café em grão e suco de laranja. Motor de pistão surge em 11.º lugar.
Mudar essa pauta, aumentando a participação de manufaturados, principalmente de bens de maior agregado, deve ser um objetivo tanto do governo quanto do empresariado brasileiro. Esta é mais que uma negociação agrícola, chegou a dizer numa entrevista, no começo da reunião, o subsecretário do Itamaraty para Assuntos de Integração, Econômicos e de Comércio Exterior, José Alfredo Graça Lima. Mas o debate público sobre o comércio com a Europa continua centrado na questão dos produtos agrícolas e agroindustriais. A pauta de exportação para a América Latina e para os Estados Unidos tem sido bem diferente. No ano passado, os quatro principais produtos vendidos para o Mercosul foram automóveis, veículos de carga, autopeças e motores de pistão. Calçados, aviões, motores de pistão e autopeças foram os quatro principais componentes das vendas embarcadas para os Estados Unidos. Vários estudos têm chamado a atenção para essa diferença e para a presença dominante das commodities na exportação brasileira para a União Européia.
Produtos básicos, segundo levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI), compuseram no ano passado 45,9% das vendas para o bloco europeu. Semimanufaturados, em geral enquadráveis na categoria de commodities, corresponderam a outros 15,4%. Além disso, segundo o mesmo estudo, os 30 produtos de maior peso nas vendas corresponderam a 70,3% das exportações para a União Européia. A concentração é muito menor no comércio com os países das três Américas. Neste caso, os 30 itens de maior importância representaram apenas 34,6% do valor total das vendas.
As exportações brasileiras destinadas à Europa são menos diversificadas, portanto, além de formadas principalmente por produtos básicos e semimanufaturados. Advertência dos técnicos da CNI: essa característica "torna o comércio brasileiro com a União Européia bastante vulnerável à variação dos preços internacionais das commodities". Esse efeito foi muito claro nos últimos dois anos, quando a crise internacional derrubou as cotações. Um diploma chamou a atenção, no Rio, para o caráter quase colonial do comércio brasileiro com a União Européia.
Nada disso reduz a importânca do protecionismo, até porque um dos principais problemas é o tratamento diferenciado, no mercado europeu, de produtos primários e de produtos processados pela agroindústria. A Europa facilita, por exemplo, o ingresso de soja em grãos, mas tributa as importações de óleo.
Mas é preciso pensar nas condições de competição dos manufaturados brasileiros, como observou o embaixador Rubens Barbosa em estudo publicado no fim de 1998. Falta verificar por que os industriais brasileiros têm tido maior êxito nas vendas para os Estados Unidos do que nas exportações para a Europa.
As negociações entre Mercosul e União Européia, ainda na fase preliminar, só produzirão resultados dentro de alguns anos. Mas a indústria brasileira pode preparar-se, desde já, para ganhar maior presença no mercado europeu, se conseguir detectar suas fraquezas e definir seus objetivos no comércio. Os europeus sabem o que querem, observou o representante brasileiro no Fórum Empresarial Mercosul-União Européia, Roberto Teixeira da Costa.
Até agora, os brasileiros se mostraram, segundo ele, muito menos preparados para fazer sua parte no jogo.

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