WASHINGTON, 09 "Desde o primeiro dia desta farsa, declarei meu apoio ao retorno desta pobre criança a seu pai. A lei, conforme interpretação da Suprema Corte dos Estados Unidos, impõe que seja assim e senti-me aliviado quando, na semana passada, o nosso governo finalmente concordou com a lei. Agora, temos um novo adiamento provocado por intrusos que estão usando o menino para promover sua agenda política. Considero particularmente odioso que esses intrusos estejam destruindo as vidas do pai e do filho enquanto eles mesmos não arriscam nada."
Esta mensagem, colocada hoje (09) anonimamente num "chat" eletrônico da America On Line, certamente não agradou os exilados cubanos em Miami e de seus aliados republicanos no Congresso dos Estados Unidos, que nas últimas seis semanas transformaram o menino Elián Gonzalez num símbolo de sua campanha de mais de quarenta anos contra o regime de Fidel Castro.
Mas ela é típica entre os americanos que se manifestaram sobre o assunto nos últimos dias nos "chats" da Internet e indica que o uso político da saga de Elián, nos EUA e em Cuba, é repelida pela opinião pública e poderá isolar a comunidade cubana num país que tem dado crescentes sinais de disposição para normalizar as relações com Havana.
Para Lilian Pubillones Nolan, cubana americana e especialista em relações Cuba-EUA no Diálogo Interamericano, a impopularidade entre os americanos da campanha da comunidade exilada para impedir o retorno de Elián a Cuba não inibirá os líderes dos grupos anticastristas de Little Havana nem a direita republicana que abraçou sua causa no Congresso.
"Este episódio é uma tragédia, pois a política tomou conta de um caso muito simples e que poderia ter sido resolvido nos primeiros dias", disse ela à Agência Estado. "A comunidade cubana age frequentemente de forma pouco racional, levada pelas emoções, e este caso é especialmente trágico não só porque envolve um menino de 6 anos que não teve até agora sequer chance de chorar a morte de sua mãe, mas porque muitos cubanos que vivem hoje nos Estados Unidos vieram para cá invocando exatamente o princípio da reunificação com suas famílias, que o governo americano usou ao decidir que a custódia de Elián cabe a seu pai".
Um de quatro sobreviventes de um grupo de cubanos que tentou chegar aos EUA, Elián, de 6 anos, foi recolhido pela guarda costeira americana numa câmara de ar, no dia 25 de novembro passado, e entregue à guarda de parentes de seu pai, que era separado da mãe e vive em Cuba. A mãe morreu na travessia. Os avós maternos e paternos de Elián vivem em Cuba e também querem o menino de volta. O presidente Fidel Castro transformou a repatriação de Elián como bandeira nacional.
Na sexta-feira, o deputado Dan Burton, de Indiana, intimou Elián a depor perante uma comissão do Congresso no mês que vem, numa manobra para impedir a execução de decisão do Serviço de Imigração e Naturalização (INS) dos EUA, na semana passada, segundo a qual Elián deve ser entregue a seu pai, que vive em Cuba.
O senador Jesse Helms, da Carolina do Norte, co-autor com Burton de uma lei de 1996 que ampliou o embargo econômico americano a Cuba e tornou mais difícil sua suspensão, tem um projeto de lei pronto para dar a cidadania americana a Elián quando o Congresso retornar do recesso do fim do ano, no fim deste mês. "Eu sou o pai de Elián e a imigração (INS) disse que sou a única pessoa que pode falar por ele", disse Juan Miguel Gonzalez, que é porteiro de um hotel de turismo em Varadero.
"Por que adiar a volta (do meu filho) ?", perguntou ele, referindo-se à manobra de Burton. "Quem é ele? Ele não é nada, eu sou o pai."
A iniciativa dos líderes republicanos tornou incerto o cumprimento da ordem do INS de repatriação de Elián , cujo prazo de cumprimento é a próxima sexta-feira.
Antes disso, uma juíza federal em Miami deve se pronunciar sobre o pedido de custódia do menino apresentado por seu tio-avô, Lázaro González. Na opinião de especialistas em imigração e grupos de defesa de crianças, a justiça confirmará a decisão do INS, que reconheceu o direito de de custódia do pai do menino. Para o advogado David Levy, presidente do Conselho de Defesa das Crianças, em Washington, a tentativa dos parentes de Elián em Miami de impedir que ele volte à custódia de seu pai, em Cuba, "não tem nenhuma base legal".
Os líderes da comunidade cubana em Miami abandonaram no fim de semana planos para perturbar e até mesmo paralisar as operações do aeroporto da cidade esta semana com atos de desobediência civil em protesto à decisão tomada pelo Serviço de Imigração e Naturalização dos Estados Unidos (INS), na semana passada, de mandar Elián de volta para Cuba.
"Esta é uma situação volátil e difícil e nós precisamos mantê-la o máximo possível fora do processo político e dentro dos canais legais estabelecidos", afirmou o presidente Bill Clinton, depois de ser informado sobre a manobra de Burton para adiar a volta de Elián a Cuba.
Politicamente, não está claro o que os republicanos têm a ganhar com sua campanha para anular a ordem do INS. O governador da Flórida, Jeb Bush, foi eleito com o apoio da comunidade cubana e já se pronunciou a favor da permanência do menino.
Ele é irmão do governador do Texas e candidato favorito dos republicanos à Casa Branca, George W. Bush. Ter seu irmão no controle da máquina política da Flórida da a George W. uma vantagem importante na busca dos votos do estado, que é o quarto maior colégio eleitoral dos EUA na dispusta presidencial de 7 de novembro.
Mas o interesse político de George W., hoje, é distanciar-se da direita republicana representada por líderes como Burton e Helms, que são impopulares entre os americanos. Ele evitou até agora envolver-se no caso Elián, talvez porque tema que isso prejudicará a imagem centrista que quer projetar em sua campanha à presidência, sem acrescentar nada em termos eleitorais, pois suas chances de ganhar na Florida já eram excelentes antes deste episódio.
A vantagem republicana na Florida liberou também Clinton e os dois candidatos democratas das pressões da comunidade cubana e fez com que assumissem uma posição mais alinhada com a opinião majoritária no país.
O vice-presidente Albert Gore e o ex-senador Bill Bradley dizem que apoiarão a decisão que a justiça tomar. "Fidel, como sempre, ganhará em qualquer hipótese", disse Pubbillones Nolan. "Se o Executivo desafiar o Legislativo e executar a ordem de repatriação do menino, ele cantará vitória; se o caso de prolongar e o Congresso der a cidadania americana a Elián, ele ganhará uma nova bandeira para alimentar sua campanha anti-americana que usa há mais de quarenta anos para manter-se no poder".