Washington, 13 (AE) - No primeiro andar de um velho galpão, num bairro decadente do centro de Washington, a bruxa Starhawk pedia a seus aprendizes que formassem um círculo. De mãos dadas e olhos fechados, balançando levemente os corpos, eles iriam chamar as forças da terra e os espíritos de seus antepassados para ajudá-los a enfrentar o grande mal do milênio: a globalização, que destrói povos e florestas no mundo inteiro, em nome de empresários e banqueiros.
Há três semanas, esse galpão na Rua Flórida foi transformado no quartel-general dos organizadores da Mobilização pela Justiça Social - uma coalizão de 400 sindicatos, organizações não-governamentais e grupos estudantis e religiosos, que, no próximo domingo, pretende colocar dez mil pessoas nas ruas de Washington. O objetivo é cercar as sedes do Fundo Monetário Internacional (FMI) e Banco Mundial (Bird), para impedir a reunião de ministros dos 182 países membros, que será realizada nos dias 16 e 17.
"Queremos fazer uma revolução para mudar instituições criadas há meio século, que decidem os rumos da economia mundial
sem se preocupar com as pessoas afetadas por elas", explicou Leone Reinbold, de 22 anos. "O Banco Mundial diz que quer acabar com a fome no planeta, mas as estatísticas mostram que a fome aumentou e que, pelo visto, seus especialistas não sabem solucionar o problema."
Em novembro passado, os mesmos "revolucionários" ocuparam a cidade de Seattle. Na época, o alvo era outro: a reunião ministerial da Organização Mundial do Comércio (OMC). Os manifestantes conseguiram bloquear a entrada do prédio, mas os enfrentamentos com a polícia resultaram na prisão de 600 pessoas e em prejuízos de US$ 17 milhões para o comércio local.
Dessa vez, os manifestantes estão mais organizados. Na entrada do galpão, jovens recepcionistas exibem os rostos perfurados por brincos e cabelos coloridos. Sua função é indicar aos recém-chegados as atividades do dia.
Enquanto a bruxa Starhawk ensinava a um grupo as artes mágicas de combate, numa sala ao lado, outro grupo treinava técnicas de resistência pacífica. "Vocês estão liderando uma marcha e, de repente, a polícia aparece em frente bloqueando o caminho. O que farão?", perguntou a instrutora aos 40 alunos sentados no chão. "Pararíamos onde estávamos e enviaríamos algumas pessoas em busca de um caminho alternativo", respondeu um deles.
Apesar de usarem armas alternativas, como meditação e dança, os manifestantes também recebem treinamento convencional para enfrentar a polícia. Existem ainda cursos diários sobre ações legais (em caso de prisão) e técnicas de fuga (em caso de um cerco policial).

mockup