Manifestantes furam esquema de segurança de FHC
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domingo, 21 de fevereiro de 1999
Por Wilson Tosta 
Vila Velha, ES, 22 (AE) - Cerca de 500 manifestantes da Central Única dos Trabalhadores (CUT), partidos de esquerda e do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) conseguiram passar hoje pelo esquema de segurança que isolara as ruas próximas à Escola Senador João de Medeiros Calmon, no Parque das Gaivotas, em Vila Velha (ES), onde foi inaugurado o ano letivo nacional pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, e chegaram perto do palanque, separados do tucano apenas por um muro. Houve tensão no palco, onde estavam Fernando Henrique e as autoridades
quando começaram as vaias e as bandeiras e faixas dos manifestantes foram empunhadas.
Um grupo de estudantes, mais ousado, conseguira entrar no pátio e, a cada manifestação dos políticos, agitava uma bandeira negra e vaiava ainda mais alto. Algumas pedras foram atiradas da rua sobre o telhado de metal da quadra de esportes, provocando estardalhaço. O presidente estava tenso.
Fernando Henrique só pareceu se descontrair quando começou a discursar, anunciado por um locutor, que falava em tom de programa de auditório, como "nosso grande presidente". "Vamos aplaudí-lo, que ele merece!" Uma queima de fogos, num prédio em construção localizado alguns metros atrás do ponto onde estava o palanque, foi tão intensa que abafou o início do discurso do presidente.
A bandeira negra acabou recolhida por seguranças. O mesmo destino teve a bandeira da CUT. Avisado por um segurança de que não poderia entrar no local com o mastro, o comerciário Maurício Nunes jogou-o fora e tentou entrar usando a bandeira como capa. Não adiantou: o estandarte acabou apreendido. "Vou sair porque estão me ameaçando", afirmou Nunes, depois de dizer que o presidente "precisa pensar no povo, não só em embelezamento" de obras. Alguns manifestantes gritavam a palavra "emprego", outros seguravam alegorias que imitavam a capa de uma carteria de trabalho. Um manifestante foi preso e outras faixas foram apreendidas dentro do pátio, antes de ser abertas.
Durante os discursos, o potente sistema de som não conseguiu abafar totalmente as palavras-de-ordem dos manifestantes. Foram jogados panfletos com ataques aos governos federal e estadual. "FHC/FMI e Zé Ignácio mentem para o povo, dizendo que são amigos da população", dizia o texto. "A quem eles pensam que estão enganando?" Os manifestantes jogaram, por cima do muro, balões coloridos, que causaram grande algazarra entre as crianças levadas para a festa. Meninos e meninas corriam e gritavam durante a solenidade, estourando as bolas e atrapalhando os discursos.
Encerrada a cerimônia, os manifestantes concentraram-se junto ao portão da escola que dá acesso à Rua João Valter dos Santos. Quem saía era xingado de "puxa-saco" e "baba-ovo". "Eles (os seguranças) bloquearam a passagem dos nossos carros, mas negociamos e viemos a pé", contou um dos líderes do protesto, o presidente do PT de Vitória, Eliezer Tavares. A manifestação foi promovida pelo PT, PC do B, PMN, PSTU, CUT, sindicatos e MST. Participaram do ato o ex-governador e deputado federal Max Mauro (PTB), o deputado federal João Coser (PT), os estaduais Max Filho (PTB) e Cláudio Vereza (PT) e outros políticos oposicionistas.
Apesar das falhas, a segurança anunciava que contaria com 500 homens do 38º Batalhão de Infantaria do Exército, 300 da Polícia Militar e 40 da segurança da Presidência da República. As obras da escola só ficaram prontas hoje, após um intenso período de trabalho, 24 horas por dia.
Alguns moradores afirmaram que as ruas próximas à escola
que foram recentemente lavadas, nunca tinham recebido esse tipo de cuidado.
"Protestos fazem parte da democracia", disse Fernando Henrique. "Estou acostumado a isso, mas não vi, estou vendo vocês agitados, mas isso é normal." Ele negou ter sentido-se constrangido.
"Olha, acho que numa democracia, é assim: como lutei muito contra o regime autoritário, não posso não ver."


