Manifestantes dizem que soberania está em jogo, querem desculpas
PUBLICAÇÃO
domingo, 09 de maio de 1999
Por Renee Schoof 
Pequim, 10 (AE-AP) - Para os manifestantes com os punhos levantados e gritando "Abaixo os Estados Unidos", a destruição da embaixada chinesa na Iugoslávia não foi um acidente. Foi um ataque deliberado contra a própria China.
Em meio a pedras e xingamentos lançados contra a embaixada e consulados dos Estados Unidos pelo terceiro dia hoje, manifestantes disseram que querem demonstrar sua fúria aos Estados Unidos e afirmaram que a China não vai permitir tal tratamento humilhante.
Sua revolta é centrada na morte de três compatriotas chineses e um ataque contra um local que simboliza o solo chinês. Soberania é uma questão particularmente sensível na China já que há um século partes do país estavam sob domínio estrangeiro.
A explicação do presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, de que o bombardeio foi um "erro trágico" não tem sido amplamente divulgada.
E durante toda a campanha aérea da Otan, a mídia estatal tem pouco divulgado relatos de atrocidades contra albaneses de Kosovo promovidas por forças sérvias.
Manifestantes exigem uma sincera desculpa por parte de Clinton. Outros carregavam cartazes chamando-o de um criminoso de guerra. Estudantes da Universidade de Direito e Política promoveram uma passeata tendo à frente uma caricatura de Clinton com uma suástica nazista em sua testa. "Um monstro que devora pessoas", estava escrito em chinês.
"Devemos proteger a soberania de nosso país. Também somos simpáticos à Iugoslávia", disse Jin Yong, um manifestante e repórter de tevê.
"Diga ao governo dos EUA que não é fácil humilhar o povo chinês. A China não é Kosovo e não é o Iraque", gritou um homem de meia idade, Qiao Kun, aos repórteres.
Perguntado como deveria ser resolvida a crise em Kosovo, ele replicou: "(O presidente iugoslavo, Slobodan) Milosevic é um herói, porque ele está protegendo a soberania de seu país".
Numa carta aberta publicada na primeira página do Diário da Juventude, de Pequim, a Federação da Juventude, controlada pelo governo, exigiu que os Estados Unidos punam os responsáveis "a fim de provar sua sinceridade para o mundo".
A carta era endereçada ao "respeitado presidente dos EUA, Bill Clinton", apesar de acrescentar: "Sentimos que não existe nada respeitável sobre você". Grupos religiosos, trabalhadores de várias companhias e universitários marcharam em grupos que receberam autorização governamental.
A organização, particularmente o cuidado em colocar grupos religiosos um atrás do outro, foi um esforço para mostrar que todos os tipos de pessoas estavam unidos em torno do governo.
"Se não fosse tão bem organizada, toda Pequim estaria aqui", disse o reverendo Meng Ningyou, um padre católico liderando seminaristas.
Ele questionou se notícias de atrocidades de forças sérvias em Kosovo eram verdadeiras e, como muitos, declarou que era errado a Otan usar a força.
"Bombas não resolvem problemas. Elas só os tornam maiores", disse Xue Yanbo, enquanto carregava uma grande bandeira azul e caminhava com centenas de colegas da Academia Central de Artes.
"É assunto interno deles e a Otan não deveria interferir, especialmente com força", afirmou David Jia, um professor de inglês na Universidade de Pequim que disse ter lido sobre a Iugoslávia em websites de agências de notícias estrangeiras.
Entre as vítimas do bombardeio da Otan parece estar também o respeito que muitos chineses, especialmente estudantes, tinham pelos Estados Unidos e coisas americanas.
Paul Chang, 25 anos, gerente-assistente da Nike na China, afirmou que até o bombardeio ele gostava da Microsoft, Pete Sampras, Michael Jordan e carros americanos, mas acrescentou: "Agora sinto muito desapontado. Se tivesse a oportunidade de emigrar para os Estados Unidos, eu não iria".


